O Haiti na Folha de São Paulo
Jan 19th, 2010 | Por PicturaPixel | Categoria: Colaboradores, Mary-Jô ZilvetiPor Mari-Jô Zilveti
Ao receber a Folha e O Estado na porta de minha casa nas sextas, sábados, domingos e segundas (nos outros dias da semana, só chega O Estado de S.Paulo), impossível não comparar as duas edições com a cobertura do terremoto do Haiti. Principalmente quando o leitor gosta de edição de fotos e textos. A Folha, assim como O Estado enviou três jornalistas para cobrir a tragédia do Haiti. Dos três profissionais, um é repórter fotográfico. Caio Guatelli, cujo trabalho respeito muito, foi pela Folha a Porto Príncipe.
Para a edição das páginas sobre o terremoto, seguramente, a redação chamou o editor de arte para fazer um projeto especial. Em ocasiões como essas, o diretor ousa mais e sai do padrão do jornal para dispor fotos, infográficos e textos, podendo aumentar o tamanho da fonte ou dando destaque para as imagens.
Em edições como a da Folha e outros jornais diários, o diagramador desenha a página após conversar com editor e/ou assistente, que lhe oferecem o conteúdo do que vai em cada página. O texto deve ser ajustado a esse tamanho determinado pelos dois. Em geral, escolhe-se um abre (a matéria principal) uma ou mais subs, abreviação para subretranca, vale dizer, sobre o mesmo assunto, porém em hierarquia secundária etc. Ou seja, não se escreve como em priscas eras, em que o repórter ditava quanto queria de espaço e a página era ajustada à sua vontade.
As capas das seções Mundo, penso eu, não foram tão ousadas. Saíram do tradicional, deram destaque para as imagens, mas nada de incomum. A fotografia da abertura do caderno e/ou seção ocupou durante os dias analisados, sexta, sábado, domingo e segunda grande espaço, abrindo a página. Normalmente, na página vem o título da manchete principal, seguido de sobretítulo ou linha fina, jargões que variam de acordo com cada redação. Daí vem a foto em três ou quatro ou cinco colunas, legendada e creditada, e um texto lateral em uma ou mais colunas.
Nas edições especiais para o terremoto do Haiti, há uma mudança na hierarquia. Ao olhar mais atentamente, percebe-se que a foto abriu a página (com crédito e legenda) e abaixo veio o título da manchete. Dependendo da edição optou-se por colocar uma segunda fotografia, desta vez centralizada. O texto não perde importância, mas seguramente as imagens estão hierarquicamente acima. Até aí nada de novo, o que digo é óbvio e conhecido por quem trabalha em diários e já se acostumou com coberturas especiais, seja o 11 de setembro ou guerras.
O que me chamou a atenção nas páginas internas foi, não apenas a hierarquia das imagens. Desta vez, ousou-se mais um pouco. No alto das páginas, o diretor de arte deu preferência a fotos em cinco colunas com grande altura e um pequeno texto lateral, com informações, não necessariamente relativas à foto, mas a outros dados do que acontece em Porto Príncipe. As legendas estavam lá para detalhar o que não precisava ser dito, mas essa é outra história, que vem do projeto Folha de 1984, quando se decidiu de forma autoritária que o leitor não sabe ler fotos e, portanto, é preciso explicar-lhe tim tim por tim tim, tratando-o feito cego ou incapaz de fazer uma leitura. Quem ainda lê a Folha é obrigado a ler legendas explicativas.
Deixando de lado essas legendas, eu gostaria de destacar que em uma página dupla, abriu-se uma fotografia em duas páginas no alto. Ela saiu em sépia, imagino que para amenizar detalhes que poderiam chocar o leitor. Os jornais brasileiros já foram mais arrojados.
Hoje parece haver pouco espaço para a ousadia editorial. Não deveria ser assim, pois não faltam diretores de arte com olhar arguto e experiência em desenhar páginas que chegam ainda às bancas e às casas ou em versão digital para quem não quer mais se sujar as mãos. Cabe destacar que a versão impressa parece ser um hábito de uma geração de leitores de mais de 40 anos. Não estou fazendo aqui apologia ao papel, muito menos me queixando em tom saudosista.
Os portais de notícias lá fora têm investido muito na qualidade da imagem e na edição de fotografias. É um assunto no qual não me meto a dar pitaco, posto que Versiani domina muito melhor esse campo e é especializadíssimo nesse tema.
Além da hierarquia das imagens, os jornais foram ágeis ao enviar fotógrafos. Em épocas de alegadas frases ‘é preciso conter custos’, a justificativa seria a mesma, que virou cantilena de tão repetida ao longo de vários anos: “Vamos usar fotos de agências. Ponto”. Caio Guatelli faturou a primeira página no domingo com uma imagem de súplica. Na segunda-feira, dia 18, o jornal trouxe foto sua na capa e na abertura da seção, além de um texto de autoria dele, em que relatava a presença de policiais diante da população, com ameaça de tiros ao alto e, logo em seguida, a morte de um haitiano com bala na nuca. O fotógrafo conseguiu ainda registrar o momento em que outro cidadão pegava a carteira do bolso do sujeito que fora morto pela polícia.
E olhe que Guatelli não seguiu os conselhos do tradutor que lhe dissera que era melhor se afastar do tumulto. Essa história presenciada por Guatelli não é novidade em uma cidade mutilada com cidadãos sem cotidiano, perambulando pelas ruas em busca de comida. Mas foi Caio que a registrou, não o jornalista do El País, do Le Monde ou The New York Times ou de uma agência de notícias. Daí sim a importância de uma redação que ainda produz jornalismo em papel acordar, se é que ainda dá tempo, uma vez que o online já ganhou mais importância entre os leitores, e apostar na cobertura de um fotógrafo da casa.
Na edição de segunda-feira, as fotos desceram na hierarquia, com exceção para a página que abre a seção Mundo. Na página ao lado, voltam ao alto da página o título, o subtítulo, o chapéu, para depois vir a foto principal. Não houve erro editorial. Essa decisão não foi tomada a esmo, sem propósito algum. Aí caberiam outras leituras, às quais prefiro não entrar em detalhes.
Parabéns a Caio Guatelli por sua ousadia e fibra e a todos os profissionais envolvidos. Ao acordar hoje pela manhã, as fotos de Caio e seu texto me prenderam. Quase perdi o fôlego. Imaginei o profissional escapando do tradutor, acompanhando a manifestação, os tiros, o corpo caindo no chão e outro haitiano surrupiando-lhe a carteira. Seu trabalho foi preciso, feito alguém que dirige, pilota ou navega. Não cabe o erro. Tem de ser exato. Mais do que isso. Necessário. Imprescindível.
