Gilberto Tadday

D3s, a mais nova DSLR Nikon

Oct 18th, 2009 | Por Gilberto Tadday | Categoria: Gilberto Tadday


© Nikon

A Nikon anunciou esta semana a sua mais nova DSLR (Digital single-lens reflex camera): a D3s. A câmera, como a sua antecessora, é voltada para os fotojornalistas. Na verdade, como o próprio nome indica, não é um modelo novo e sim um atualização da D3. O corpo é basicamente o mesmo e o que muda mesmo é internamente. As principais mudanças são:

- Novo sensor CMOS de 12.2 Mp, full frame
- Melhoria da qualidade de imagem produzida pelo sensor e aumento das faixas de ISO disponíveis de 200 a 12800, com a possibilidade de chegar até 102,400 no modo HI3.
- Buffer maior, permitindo 48 fotos RAW em sequência sem parar (na D3 era 18)
- Vídeo HD (720p, 24fps motion JPEG)
- Mecanismo de auto limpeza do sensor
- Opção de corte de 1.2x, reduzindo a resolução para 10Mp
- Botões próprios de “Info” e “Live View” na parte traseira da câmera
- Modo silêncioso de disparo através do controle da subida e descida do espelho
- Menu de retoque ampliado, com conversão de arquivos RAW e mudança de tamanhos disponíveis

O preço sugerido pela Nikon nos Estados Unidos é de US$ 5199, mas especula-se que ela deve ser vendida nas lojas pelo mesmo preço inicial da D3, US$ 4999, quando chegar ao mercado no final de novembro.

Dentre as principais características da D3s, duas chamam a atenção. O aumento da sensibilidade do sensor e a inclusão do modo de gravação de vídeo. Ainda não há imagens feitas com ISO 102,400 circulando publicamente, mas as fotos feitas com ISO 12,800 possuem uma qualidade excepcional, comparável à imagens capturadas com ISO 400 e 800 por câmeras produzidas há alguns anos. Não há ruído (noise) nenhum. Ela consegue superar a D3, que já quebrou barreiras e era a melhor DSLR nesse quesito.


© Shigeo Gomi.
1/160, f/4.5, ISO 12800, JPEG Fine


Detalhe em 100%.


© Vincent Munier.
1/800, f/4, ISO 12800, JPEG Fine


Detalhe em 100%.

A Nikon foi a primeira empresa a adicionar vídeo nas suas câmeras fotográficas com a D90. Hoje, a D5000 e a D300s também possuem a função. A D3s é a primeira câmera top de linha voltada exclusivamente para o mercado profissional a oferecer esse recurso. No entanto, a resolução do vídeo é de 720p com 24fps enquanto na Canon 5DMkII, que já está no mercado há meses, é de 1080p com 30fps. Na verdade, o modelo da Canon se tornou referência pela qualidade de vídeo HD que apresenta. Ela é procurada, inclusive, por pessoas interessadas em fazer somente vídeo e não fotografia. Nesse ponto, o lançamento da Nikon deixou muitos profissionais frustrados. Não que a qualidade do vídeo produzido pela Nikon não seja boa, mas certamente ainda está atrás do produzido pela Canon. Para trabalhos multimídia mostrados na web, entretanto, talvez a diferença seja imperceptível.





Maiores informações sobre a câmera disponíveis na Nikon USA e no DPreview (em inglês). Mais vídeos e fotos feitas com a D3s aqui.



New York Photo Festival 2009

May 19th, 2009 | Por Gilberto Tadday | Categoria: Gilberto Tadday


Fotos © Gilberto Tadday


NYPH 2009, o Brooklyn respirando fotografia.

Por Gilberto Tadday

O New York Photo Festival encerrou no último domingo e o Raul não levantou o caneco, infelizmente. A torcida foi grande, como sempre, mas não deu. Foi o segundo ano em que ele chegou às finais. Ano passado, nós assistimos a cerimônia de premiação juntos na St. Ann’s Warehouse em DUMBO, no Brooklyn. Este ano ele não veio.

O festival foi bacana. Muitas palestras, exposições e fotógrafos por todos os cantos com câmeras na mão, no pescoço, no ombro. Oportunidade única para encontrar amigos, conhecidos ou simplesmente bater um papo com aquele fotógrafo famosão que você costuma ver o crédito nas páginas da Time, Newsweek ou Archive. Not bad.



As leituras de portfólio foram super concorridas. Não era para menos. Editores dos principais jornais e revistas estavam lá. Donos de galerias e curadores de museus também marcaram presença.



Era só não perder tempo, chegar cedo para reservar lugar e desembolsar $265 por 3 sessões de 20 minutos de opiniões sinceras (realmente sinceras) que poderiam fazer o seu dia ou acabar com ele.
Uma das leituras da sexta me lembrou das vinhetas feitas pelo Hans.



Muitas exposições por todos os cantos.





A tendência dos últimos anos se mostrou presente: fotos MUITO grandes na parede.



Ao mesmo tempo, cada vez mais pessoas questionam se este não é simplesmente um artifício usado para impressionar o espectador e mascarar a mediocridade da imagem. Confesso que às vezes esta teoria faz um certo sentido. As cópias grandes realmente impressionam. Mas em alguns casos, é muito gratuito, porque a imagem em si não tem nada demais, é simplesmente OK.



Dentre as palestras, uma interessante que assisti foi sobre fotografia e a blogosfera. Os convidados escrevem em alguns dos blogs fotográficos mais conceituados atualmente por aqui: Andrew Hetherington, Laurel Ptak, Brian Ulrich, Cara Philips e Jorg Colberg. Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi o consenso sobre o sentimento de comunidade criado e alimentado pelos blogs. É um sentimento que já percebemos por aqui na PicturaPixel há um bom tempo. Tudo conectado, nada dominado. Esta interface nos permite conhecer e interagir com pessoas nos quatro cantos do mundo sem sair de casa. Fazemos amigos e parceiros mesmo sem nos conhecermos fisicamente. Ou ainda, acabamos encontrando em NY ou Barcelona pessoas que chegaram até nós através do blog. Admirável mundo novo. Este fenômeno é universal, independente da língua ou local. Bacana.

Voltando ao prêmio que o Raul não levou, tenho certeza de que foi marmelada. Por aqui, ele foi o vencedor de fato e de direito. Sem discussão, ponto final. Falando sério agora, acredito que ele não ganhou pelo mesmo motivo do ano passado: superprodução. Não quero desmerecer os vencedores, eles são grandes fotógrafos, sem dúvida. Mas na categoria “advertising” e “advertising series”, eles ganharam porque as fotos apresentaram uma produção genial, que envolve muitos $$$$. E com muito photoshop. O que me leva a pensar se o que está em julgamento é a fotografia em si, a peça publicitária, a manipulação ou a produção da imagem. Porque muitas vezes as imagens finais são uma composição de várias fotos montadas no computador. E esta montagem é feita pela agência de propaganda ou por outra empresa especializada contratada para executar este serviço. Até que ponto o fotógrafo é o verdadeiro merecedor do prêmio quando a idéia parte de um diretor de arte e o resultado final é uma composição montada por outro profissional e não pelo fotógrafo? Como uma imagem feita sem montagem compete com uma completamente criada no computador? Os concursos fotográficos precisam ser atualizados, precisam ser adaptados à era do Photoshop. Além disso, quais os critérios de julgamento de uma imagem publicitária? O enquadramento, a luz, a execução ou a idéia e a produção envolvida antes da foto ser feita? Pense aí e me diga.



Estes foram os premiados no festival:

Editorial Single Image: Felix Hug

Editorial Series: Thomas Lekfeldt & Ekstra Bladet

Short Film/Video: Bruno Levy, “Sialogogue”

Fine Art Single Image: Mike Whelan

Fine Art Series: Justin James King

Advertising Single Image: Kai-Uwe Gundlach

Advertising Series: John Clang

Photo Book: Ernesto Bazan, Cuba

Student Editorial Single Image: Andy Spyra

Student Social Documentary Essay: Andrea Star Reese

Student Fine Art Single Image: Mark Fernandes

Student Fine Art Series: Elliot Wilcox

Student Photo Book: Patrik Budenz, Post Mortem

As fotos vencedoras podem e devem ser conferidas aqui. Enjoy! Ano que vem tem mais.



A noite em que Bob Kennedy morreu

Mar 28th, 2009 | Por Gilberto Tadday | Categoria: Gilberto Tadday


© Gilberto Tadday


Bill Eppridge e a noite em que Bob Kennedy morreu

Por Gilberto Tadday

Em outubro passado, durante a feira Photo Plus Expo aqui em Nova York, tive o privilégio de assistir o legendário fotógrafo Bill Eppridge contar um pouco da sua história. O jornalista Peter Arnett foi o mestre de cerimônias e entrevistou o fotógrafo durante a palestra. Eppridge nasceu na Argentina mas cresceu nos Estados Unidos. Cobriu guerras, campanhas políticas, olimpíadas e a primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos. Foi fotógrafo da Life por muitos anos. Quando a Life fechou suas portas, ele foi contratado pela Sports Illustrated. Já ganhou diversos prêmios internacionais. Um dos momentos mais marcantes de sua carreira foi a cobertura da campanha do senador americano Robert F. Kennedy à presidência dos Estados Unidos. Kennedy foi assasinado na noite de 5 de junho de 1968 no hotel Ambassador em Los Angeles, ainda durante as primárias democratas. Eppridge estava lá no momento em que Kennedy foi baleado. Sua imagem entrou para a história.




Fotos © Bill Eppridge – Time Inc.

Ouça Bill Eppridge contando como foi cobrir a noite em que Bob Kennedy morreu (em inglês):


Se você quiser saber mais sobre o trabalho do fotógrafo e sobre seu último livro A Time It Was: Bobby Kennedy In The Sixties, veja o slideshow multimídia produzido por Christopher T. Assaf para o jornal Baltimore Sun aqui.



Além disso, você pode ler mais sobre Epridge no Digital Journalist aqui e tambem pode ver suas imagens aqui. Ou na Double Exposure aqui.

Entrevista com Eppridge na emissora de TV CBS:


E na MSNBC:



Mais Kennedy no antigo Bloco de Notas aqui e aqui. E mais Eppridge aqui.

Por fim, para os que são fãs dos Beatles, como o amigo Raul Krebs, um bônus: Eppridge contando como foi cobrir a primeira viagem dos Fab Four à América. Enjoy!




Foto © Bill Eppridge – Time Inc.



PS.: Se você quiser levar para casa uma das famosas fotos que Eppridge fez dos Beatles, passe ali na loja do NY Times.



Pare de vender suas imagens!

Mar 13th, 2009 | Por Gilberto Tadday | Categoria: Gilberto Tadday




Cessão de direitos ou licenciamento? É hora de começar a pensar no seu futuro.

Por Gilberto Tadday

Imagine a seguinte situação: você, fotógrafo, é contratado por uma revista para fazer o retrato do diretor de uma empresa. Como todo bom freelancer, você fica animado quando recebe o telefonema ou email do editor. O entusiasmo diminui um pouco quando você descobre o quanto eles querem pagar pelo trabalho. Hum…, você pensa um pouco e aceita. Afinal, a vida de freelancer no Brasil é difícil. É complicado recusar trabalho. Bom, você aceita, vai lá e faz o retrato do sujeito, entrega as fotos e completa o trabalho dentro do prazo e com sucesso. Chega a hora do pagamento. Na hora de enviar a nota fiscal ou o recibo, o departamento financeiro da editora lhe informa que você precisa enviar também um contrato de cessão de direitos autorais. Sem ele, o pagamento não será feito. Política da empresa. Você pesa os prós e contras, analisa as finanças e quanto ainda falta para pagar o seu mês e pensa “ok, a pessoa que fotografei não é importante, ninguém conhece, nunca mais vou publicar novamente já que em um ou dois anos ela vai estar desatualizada, as pessoas mudam” e resolve assinar. O trabalho já foi feito mesmo. Apesar de o cachê ser uma mixaria, vai fazer falta no fim do mês. Você envia. Algum tempo depois eles pagam. E a história termina bem para todos os lados. Certo? Não exatamente.

Continue imaginando, a história ainda não terminou. Dez anos se passam desde que você fez aquele retrato do diretor da empresa. Um belo dia o telefone toca e é o editor de fotografia de outra revista. Ele precisa de uma foto do tal diretor e, através do Google, achou a sua foto, aquela de 10 anos atrás. Você nem lembra do personagem, muito menos que fez a tal foto publicada na revista. No telefone, o editor lhe informa que o sujeito que você fotografou está envolvido em escândalo de proporção mundial e que é impossível fotografá-lo novamente. Também não há nenhum retrato recente dele. Só a sua foto. E ele paga bem porque quer dar a foto na capa. O que você faz? Acertei na loteria, você pensa. Mas só por alguns segundos. O próximo pensamento que lhe vêm à mente é o maldito CCDA que você concordou em assinar para receber aquela mixaria. Você respira fundo, tentando afogar a frustação, e informa ao editor que ele precisa contatar a revista que originalmente publicou a foto. Eles é que detém os direitos de reprodução da imagem. Quanto você recebe no final das contas quando a imagem é publicada na capa da outra revista? Nada. Quanto você recebe quando outras publicações também usam a mesma foto? Zero.

Agora você deve estar pensando “fala sério, isso nunca vai acontecer”. Ok, talvez não aconteça toda hora. Mas acontece. E quando você menos espera. É o caso do fotógrafo Jonathan Saunders, que vive e trabalha aqui em NYC. Em 1999, no começo de sua carreira, ele fotografou um investidor chamado Bernard L. Madoff para a revista Fortune. Em dezembro do ano passado, um editor de fotografia do The Wall Street Journal liga para Saunders à procura de uma das fotos feitas naquela sessão de 1999 para publicar no jornal. O fotógrafo não entendeu muito bem o interesse por uma foto feita 10 anos antes. Mas em questão de poucas horas a notícia sobre o “Ponzi Scheme” conduzido por Mr. Madoff estourou na imprensa e Saunders percebeu a mina de ouro que tinha na mão. Até hoje, além do WSJ, as imagens já foram publicadas também no Daily News, na capa da revista Portfolio e em várias publicações estrangeiras. Quem recebeu pelo uso das imagens nestas publicações? O fotógrafo. Por quê? Porque por aqui ninguém topa assinar CCDA. O cachê do trabalho cobre a realização das fotos e a publicação de uma imagem, uma só vez (e só na versão impressa, se foram eles que contrataram). Se forem publicadas outras imagens na mesma matéria, a revista paga a mais. E o valor é calculado de acordo com o espaço ocupado pela imagem na página. Um parênteses: anúncios de publicidade em jornais e revistas não são calculados de acordo com a circulação e tamanho do anúncio na página? Ok, estou entendendo… Voltando. Além disso, existe um período de embargo em que o fotógrafo não pode publicar as fotos em nenhum outro veículo. Em geral, 6 meses. Depois disso, as mesmas imagens podem ser publicadas em qualquer veículo, inclusive na concorrência, se o fotógrafo quiser. E isto acontece porque aqui ninguém “vende” fotografias. Aqui, as imagens são licenciadas. Ou seja, o jornal ou revista paga pelo direito de usar a imagem em uma determinada edição. E paga de acordo com este uso, de acordo com a área impressa. Eles não passam a ser donos da imagem. Nem quando eles contratam o fotógrafo para cobrir a pauta. Algumas empresas tentam, mas em geral não levam.

No Brasil, esta prática já existe há muito tempo no mercado publicitário. O uso de imagens tem tempo limitado e o fotógrafo é pago de acordo com a circulação, área impressa, região e tempo de veiculação. Por que no jornalismo não é assim também? Os anunciantes que compram espaço publicitário em um jornal não pagam de acordo com o tamanho do anúncio? Uma propaganda na capa custa o mesmo que uma nas páginas internas? Na última coluna, sugeri alguns tópicos para discussão. Este é um deles. Nos comentários, Eduardo Queiroga e Claudio Versiani também sugeriram tópicos interessantes para debatermos. Este é um assunto que todo fotógrafo deveria pensar e discutir. Estamos longe de mudar completamente esta realidade? Sim, mas temos que começar algum dia. Principalmente se quisermos continuar vivendo da fotografia editorial e jornalística.

Jonathan Saunders e Bernie Madoff no NY Times aqui. No BagNews Notes aqui. E no State of the Art aqui.
E mais sobre Jonathan Saunders aqui.



Fairey, Mannie, AP e o crédito fotográfico

Feb 27th, 2009 | Por Gilberto Tadday | Categoria: Gilberto Tadday



O poster do Obama feito pelo artista Shepard Fairey ficou famoso aqui nos Estados Unidos durante a campanha presidencial do ano passado.
Recentemente, foi descoberto que o autor da imagem que inspirou Fairey era o fotógrafo Mannie Garcia. Uma grande polêmica e discussão tomou conta da imprensa nos EUA e no mundo. Aqui no Bloco de Notas, a discussão também esteve presente e os comentários foram fervorosos. Veja.
Fairey não foi o primeiro artista – e certamente não será o último – a usar fotografias de outras pessoas como base ou inspiração para sua própria arte. Andy Warhol é um exemplo que logo vem à mente devido à semelhança gráfica entre os dois artistas. Warhol ficou famoso por sua arte pop em que reproduzia, manipulava e alterava imagens fotográficas através da serigrafia. A sua Marylin Monroe é um bom exemplo.



By the way, alguém lembra o nome do fotógrafo que criou a fotografia original? O MoMa, museu de arte moderna de Nova York, não. No site do museu a Marilyn de Warhol é apresentada assim:

Andy Warhol. (American, 1928-1987). Gold Marilyn Monroe. 1962. Silkscreen ink on synthetic polymer paint on canvas, 6′ 11 1/4″ x 57″ (211.4 x 144.7 cm). Gift of Philip Johnson. © 2009 Andy Warhol Foundation for the Visual Arts / Artists Rights Society (ARS), New York.



Só para registro, o fotógrafo é Gene Korman e a foto foi feita para divulgação do filme Niagara de 1953.
A discussão, no entanto, pode ser um pouco mais complexa. Por aqui (NYC), o debate é mais em relação a Fairey ter violado o copyright do fotógrafo ou não. O “Fair Use” é questionado não em relação ao crédito do fotógrafo na imagem e sim em relação a ele ter usado a imagem sem permissão. Ele violou o direito autoral do fotógrafo? Se vamos discutir, devemos nos concentrar neste ponto. E devemos discutir o que é arte, como arte é criada e quais os limites que podem ser estabelecidos ou ultrapassados. A arte criada por Fairey não é a foto feita por Mannie. É completamente diferente, ainda que a fotografia tenha sido o ponto de partida para a criação. Especialistas neste tipo de discussão aqui nos EUA questionam ainda mais. Até que ponto o rosto e a expressão do Obama podem ser “copyrighted”? A imagem criada é tão diferente, que se tornou outra. Agora, onde estabelecemos a linha divisória? Onde a obra deixa de ser uma criação de Mannie Garcia e passa a ser do Fairey? Como falei, para chegarmos a uma resposta, precisamos pensar e discutir mais arte, expressão e questões legais como o “Fair Use”.
Não quero, no entanto, discutir o sexo dos anjos. Afinal, o crédito ao fotógrafo vai ser devidamente registrado. Por que não aproveitamos a oportunidade e questionamos o fato de uma multinacional da indústria da informação ter tentando se apropriar do direito autoral de um dos seus colaboradores? Acho isso muito mais grave do que o fato do Fairey ter ou não ter dado o crédito ao fotógrafo. O copyright da imagem pertence ao fotógrafo. Ele não assinou nenhum contrato cedendo os direitos para a Associated Press. Ele também não é funcionário ou frila fixo da empresa. Por que então, a AP entrou na discussão querendo cobrar crédito e, principalmente, compensação financeira alegando ser a dona dos direitos de reprodução? Porque a maioria das grandes empresas no mundo editorial e jornalístico, tanto aqui quanto no Brasil, tem por hábito o sequestro arbitrário dos direitos do fotógrafo sempre que possível. Aqui, este assunto é sério e boa parte dos fotógrafos se nega a assinar contratos cedendo todos os direitos. As corporações tentam, mas nem sempre levam. E no Brasil? Como agem as empresas, jornais, revistas? E como agem os fotógrafos em relação aos seus direitos? Quem já ouviu falar do infame CCDA? Quem nunca assinou um Contrato de Cessão de Direitos Autorais que atire a primeira pedra… Sim, o crédito do fotógrafo é obrigatório. Mas o direito autoral também deve ser. Mas isso só acontecerá no dia em os próprios fotógrafos entenderem isso e deixarem de assinar tais contratos draconianos. Imaginem a mesma situação do Fairey/Mannie se passando no Brasil. Quem iria faturar? Certamente não o fotógrafo.
Sugiro uma nova discussão: Por que não usamos o nosso tempo discutindo e questionando o “Fair Use” e o crédito obrigatório na internet? E não me refiro somente ao uso da fotografia. Se o Fairey deveria creditar o fotógrafo, será que um blog que copia o “post” de outro não deveria creditar o blog que foi a fonte? E aquele que não copia literalmente mas que “chupa” as informações e as publica como novidade ou como conteúdo original? Circulo diariamente por vários sites e blogs de fotografia do Brasil e do exterior. Não passa uma semana sem que veja notas publicadas aqui na PicturaPixel reproduzidas por outros blog sem o devido crédito. Por que ninguém questiona isso? Não devemos creditar quem teve o trabalho de pesquisar um assunto e criar um conteúdo original, ou pesquisar e agregar informações de vários cantos da rede em um só “post”?
Da mesma forma que me revolta ver fotos em jornais e revistas sem crédito ou com crédito mostrando somente a agência, também me revolta o estômago ver o trabalho e esforço jornalístico de alguns blogs e sites de notícias sendo copiado descaradamente sem crédito. E não me refiro somente a blogs amadores, que estão começando, e ainda não conhecem ou desconhecem a ética jornalística. Já vi várias vezes este comportamento mesquinho em blogs famosos, escritos por autores, fotógrafos e jornalistas de peso, respeitados e conhecidos na indústria fotográfica. Será que ninguém percebe isso? Não é preciso andar por muitos blogs para começar a perceber este comportamento.
A polêmica Fairey/Mannie/AP é bastante interessante e o debate certamente é válido. Mas penso que seria importante discutir questões mais relevantes como as que sugiro acima.

Alguém se habilta?