Artigos

“Las fotos por lo tanto no matan”

Jan 6th, 2010 | Por Claudio Versiani | Categoria: Artigos

Por Carlos Cazalis

En EEUU se defiende la ley para portar armas con el argumento de que as armas no matan, quien mata son los humanos. Y así es! Pero el arma facilita el método? Antes de que existieran armas de fuego la humanidad ya estaba en pie de guerra. Las fotos por lo tanto no matan. Sin embargo nosotros si usamos a la foto como una defensa a lo que seguimos negando, nuestra violencia.
Aun estoy leyendo la historia de Faulques de Perez-Reverte y en ello como fotógrafo yo mismo entiendo a lo que se refiere sin terminar el libro y así también me pregunto que propósito final tienen mis fotos? Eso no lo decido yo por mas que quiera pintar la foto perfecta. La fotografía es un instante documentado y por lo tanto un instante en el que reflejamos la infinidad del tiempo a nuestra discordia. Riva Palacio en su editorial hace uso de la intelectualidad para explicar algo que ya de por si no solo es absurdo pero esta afectando primordialmente a una parte de la sociedad que ni lo lee y que mucho menos sabe leerlo por la falta de educación que nuestro mismo gobierno no ha sabido darnos y ni hemos sabido reclamar.
El mensajero que ha publicado la foto no puede tener tacto ni mucho menos concebir el limite de su frialdad porque una foto es un reflejo enmarcado de la realidad que hemos creado. Una realidad que en México y su sociedad es especialmente cruda y burlona ante la muerte. Una visión que en muchos casos es una manera tanto de aceptar como de negar la muerte.
Debemos mirar a esa foto de Beltrán Leyva porque debemos enfrentar y ver lo que estamos haciendo y provocando porque es la única manera de aceptar que en ambos lados de esta guerra, si es que hay lados, todos estan siendo tanto bárbaros como animales. Los medios de comunicación están ahí para comunicar lo ocurrido y no filtrar lo ocurrido, por lo tanto deben aclarar y describir lo que saben sobre esa imagen.
Esta imagen no es producto del narco, ni del crimen, ni de las drogas y si de la violencia que como “seres humanos” continuamos a crear y a negar que la hemos producido. Es una imagen que refleja en todo su color y billeteria a nuestra sociedad Mexicana que hemos creado todos nosotros al ser cómplices de ella en el consumo de droga, en el apoyo electoral a politicos y partidos corruptos, o la disculpa de que yo que puedo hacer? y a la negación de la violencia que ejercemos sobre nuestros mismo seres amados en casa.
La foto no mato al marino ni a su familia. Ellos murieron por culpa de nuestra violencia y nuestra guerra “civil”. La divulgación del nombre del marino solo acelero el proceso de búsqueda de la familia. Morirán mas en el 2010 con o sin foto.

Post Scriptum
Por Claudio Versiani

Carlos Cazalis, que é mexicano, bom lembrar, escreveu esse artigo depois que ele leu o texto Esas fotografías que matan
de Gabriela  Warkentin publicado no El País…

E o artigo La batalla de los símbolos
escrito por Raymundo Riva Palacio e publicado no mesmo periódico

As fotos em questão…



Para entender o caso…

Fotos de Arturo Beltrán Leyva muerto causan polémica



Saudades do Brasil

Nov 5th, 2009 | Por Claudio Versiani | Categoria: Artigos

Lévi-Strauss, Claude. Saudades do Brasil. São Paulo, Companhia Das Letras.







Por Luiz Eduardo Robinson Achutti



Grata surpresa para antropólogos, fotógrafos e aficcionados de ambas as áreas, um livro de fotografias do mestre Claude Lévi-Strauss. E com esse nome: Saudades do Brasil. Seria coisa da Companhia das Letras? Aprendi num artigo de Roberto DaMatta que nós brasileiros temos o privilégio de poder sentir saudades até da própria saudade. Senti saudade de minha saudade pela Elis Regina (faz treze anos que ela viajou sem volta). Coloquei seu último disco na vitrola (não o tenho em CD) e organizei-me entre ouvir o Saudades do Brasil da Elis, que há muito não ouvia, e folhar o recente Saudades do Brasil do Lévi-Strauss. Pulo a introdução do livro, e começo a viajar pelas populações indígenas brasileiras do ano de 1935 ouvindo a introdução instrumental de César Camargo Mariano quando vem o primeiro texto, no disco: “Mais um dia vai chegar / Que o mundo vai saber / Não se vive sem se dar. / Quem trabalha é que tem / Direito de viver / Pois a terra é de ninguém”. É de arrepiar.
Voltando para o início do livro constata-se que Lévi-Strauss inspirou-se no nome de uma peça para piano composta por Darius Milhaud em 1921, compositor francês que atuara na embaixada francesa num Rio de Janeiro em seu período áureo.
Para compor este livro de 228 páginas estampadas com 176 belas fotos em preto e branco o autor, com o auxílio de sua mulher, refez a viagem do então jovem etnólogo através de 3000 fotografias obtidas na sua maioria com uma câmara Leica. As fotos estão editadas na seqüência que parte da cidade de São Paulo passando por Pirapora, Pico do Itatiaia, Paraná, Santa Catarina, tribos Caduveo, Bororo, Nambikwara, Mundé, Tupi-Kawahib, terminando com a série que o autor denomina “O Retorno”. Os negativos de um modo geral apresentam-se bem conservadas e por isso puderam resultar em boas ampliações feitas por Matthieu Lévi-Strauss a quem o Claude Lévi-Strauss dá a co-autoria do livro.
Apesar de sua afeição passageira pela fotografia, (o autor confessa que depois deste período brasileiro deixou de lado a técnica fotográfica), influenciado por seu pai como ele definiu: um “artista-pintor e sobretudo retratista, que tinha o hábito de fotografar seus modelos para controlar a posição dos traços principais”., Lévi-Strauss revela ter domínio técnico e uma boa noção de composição e equilíbrio. É bem verdade que não se pode saber se todas as fotografias apresentadas estão com seu recorte original ou foram retrabalhadas na ampliação. Algumas que apresentam uma acentuada granulação em relação as demais poderiam sugerir isto.
Para os conhecedores de uma das principais obras de Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, escrita quinze anos depois de ter retornado a Paris, Saudades do Brasil constitui-se num belo volume de ilustração chegado quarenta anos depois do principal. Em Tristes Trópicos o autor afirmava que “a evocação de recordações com 20 anos de idade é semelhante à contemplação de uma fotografia amarelecida. Quando muito pode ter um interesse documental”. Suas fotografias não amareleceram, porém, com 86 anos de idade, ao evocar suas recordações o autor revela um tom saudoso e confessamente cético. Na introdução de Saudades do Brasil não reconhecemos os questionamentos do papel do antropólogo que vai ao terceiro mundo cumprir uma espécie de ritual de passagem, não encontramos a discussão sobre o caráter das cidades européias em relação as americanas, também não encontramos os relatos das dificuldades e das peripécias de um estudioso europeu que ganha as matas de um país continental e que, no desespero para não se perder, agarra uma mula pelo rabo, enfim não encontramos a vitalidade do antropólogo que revela seu processo, seus questionamentos e suas descobertas. Em Saudades do Brasil encontramos Lévi-Strauss hesitante quanto a importância de colocar a público suas fotos. Ele faz questão de alertar para o fato de não trazer o retrato de existências primitivas, ao contrário; afirma tratarem-se de restos da uma civilização dizimada. Mesclando seu conhecimento anterior com informações mais recentes, o autor chama a atenção para o desaparecimento das populações indígenas, através da diminuição de seus conglomerados e a perda de suas especificidades e identidades culturais. Ele chega a tomá-las como metáfora da perda de qualidade de vida na Europa, afirmando que “todos índios doravante, estamos em via de fazer de nós mesmos o que fizemos deles”. A maneira estruturalista, relaciona a diminuição populacional e a desagregação cultural dos índios, com o progresso e o aumento populacional do Ocidente que irá “devorar a si mesmo”. Termina declarando “afeto e nostalgia” ao Brasil, assim com à sua própria juventude. Leia-se: saudades.

* Resenha escrita em 1994



E o Rio brilhou!

Oct 28th, 2009 | Por Claudio Versiani | Categoria: Artigos


© Sérgio Moraes/Reuters

E o Rio brilhou!

Por Maria Alice Mazzarolo

Numa apresentação impecável, o Rio conquistou o direito de sediar as Olimpíadas de 2016!
E o Rio precisou abrir espaço, na sexta-feira, para abrigar todo o resto do Brasil, que também se sentia carioca! A torcida sofrida, o coração batendo forte, a expectativa angustiante até a explosão da emoção contida, do orgulho de alma lavada! Cartas marcadas ou não, decisão política ou não, foi uma vitória limpa, justa e merecida.
Temos que reconhecer e parabenizar o preparo da delegação brasileira. Uma apresentação exemplar. Nada a acrescentar ou remover. Uma postura segura, controlada, digna. Discursos corretos, diretos, claros, objetivos. O filme maravilhoso, com a musica muito bem escolhida, retratou com fidelidade quem somos. Sem maquiar os problemas já conhecidos e arraigados, conseguiu captar a essência da cidade e de seus habitantes. Resgatou a auto-estima, mostrando para o mundo muito mais do que mulheres semi-nuas ou apenas sua paisagem exuberante. Mostrou o dia a dia, o cidadão comum, a cidade na sua intimidade. Só que havia mais, muito mais por trás daquelas imagens. Havia a emoção de uma nação, havia o sonho de tantos atletas, havia o suor de todos que batalharam para chegar lá, havia as areias tomadas de verde e amarelo, havia todos diante da TV, havia o esboço da consciência cívica, havia a esperança de que podemos ser mais. E efetivamente podemos.
Não tenho dúvidas de que será um evento inesquecível! Bem organizado, alegre e muito criativo! Será um espetáculo que nada ficará a dever aos já apresentados pelos outros países. Com um diferencial. Os atletas e visitantes não se surpreenderão apenas com o show de abertura. Não se surpreenderão apenas com os resultados das competições cada vez mais acirradas. Não se surpreenderão apenas com a superação desses atletas fantásticos. Não se emocionarão apenas com a emoção de cada vitória, cada resultado…ou derrota. Não se emocionarão apenas com os hinos e bandeiras hasteadas. Não aplaudirão apenas as medalhas conquistadas. Os atletas e visitantes se surpreenderão a cada dia com a festa que ocorrerá fora das competições. A festa da cidade, que não fará parte de nenhum ensaio prévio. A festa natural, espontânea e contagiant e. O pulsar de uma cidade em festa. De verde e amarelo, vibrando, cantando, sorrindo, apoiando, se emocionando. Nas ruas, praças, praias, ônibus, feiras, por todo lado. Um show de espírito esportivo e de hospitalidade! ! O atleta extra, que fora das competições oficiais, brilha como a maior das atuações! Medalha de ouro!

Minhas preocupações são outras.

Primeiramente, com o evento em si e o que ele significa. Ou poderia significar. Ou deveria significar. Outro dia, li que a meta do COB para os Jogos de 2016 seria incluir o Brasil entre os 10 melhores colocados. Uma meta audaciosa para quem ainda não tem tradição olímpica e desempenho ainda bem aquém do almejado. Não sei como poderíamos, realisticamente falando, em apenas 7 anos, investir, treinar e formar campeões olímpicos suficientes para garantir essa colocação. Num pais onde patrocínio é difícil e condições de treinamento precárias, como seria possível? Precisamos pensar nessas Olimpíadas como um marco. O início da mudança efetiva da nossa tradição esportiva. Aproveitar a euforia, a motivação, a curiosidade e a disponibilidade, para criar um grande, enorme, gigantesco celeiro de novos atletas! Sair à busca desenfreada por novos talentos! Criar centros de treinamento, criar as oportunidades, traçar um plano contínuo de renovação de atletas. Mas com critério, planejamento. Pensemos com ambição, mas com humildade. Sem a soberba de quem ousa ser mais do que é, pois seria um desperdício de tempo e dinheiro. E não temos tempo ou dinheiro para desperdiçar. Já conseguimos formar essa tradição no vôlei. Também na ginástica olímpica. E começamos na natação. É possível. Gostaria de ver o mesmo com o Atletismo. Temos tudo para sermos uma referencia no atletismo. Por que ainda não o somos?
Num país onde o sistema educacional precário sucumbe, moribundo, talvez essa seja a nossa oportunidade única , e última , de reverter o nosso destino! E, através do esporte, criar para as gerações futuras oportunidades que a educação tradicional precisaria de gerações e gerações para alcançar. Precisamos apostar e pensar nessa nova geração! Abrir as portas para essa juventude, que, com a expectativa de 2016, terá a chance de vivenciar de perto a mágica desse mundo dos grandes, dos melhores. O pódio da conquista de sonhos. Seduzir com o brilho das medalhas. Mostrar aos nossos jovens o que o esporte pode propiciar. Que a pratica do esporte ensina, na pratica, os valores básicos humanos, comunitários, sociais, éticos e culturais que determinam o valor de qualquer nação. Que o sucesso requer disciplina, determinação, obstinação, repetição e muito esforço e trabalho. Que toda conquista pressupõe um trabalho de equipe. Que vencer ou perder requer dignidade. Que o esporte derruba preconceitos e barreiras. Que o esporte nivela desigualdades. Que há uma saída. Que objetivos têm que ser reais. Que há sonhos possíveis. Torço para que o Brasil consiga sua posição de destaque entre os melhores do mundo em 2016. Mas torço muito mais pelas posições que ocuparemos em 2020, 2024, 2028 e daí por diante. Pois significará que conseguimos consolidar nossa decisão, como país, independente dos holofotes do mundo, de apostarmos na nossa vocação e talentos esportivos.
Minha outra preocupação é com o Rio de Janeiro pós Olimpíadas. O que será do Rio? O que está sendo pensado para o Rio? Que projeto de cidade está sendo idealizado? Não podemos perder essa chance de retomar o nosso destino e escrever uma história diferente e mais digna. Aproveitar o investimento e geração de recursos para criar o Rio do futuro. Mas o futuro presente, imediato. Precisamos construir a Olimpíada de 2016 com a responsabilidade de preparar o Rio para cumprir sua inequívoca vocação. Com sua geografia diferenciada, sua beleza natural única, seu clima favorável e um povo reconhecido por sua alegria e informalidade, o Rio pode tornar-se o maior centro turístico da America Latina. Além do turismo tradicional, já habitual de verão, carnaval e a comemoração de Ano Novo, podemos fazer do Rio o maior centro esportivo da America Latina (sediando jogos panamericanos, e campeonatos sulamericanos e mundiais das diversas modalidades), sede das mais renomadas feiras e exposições internacionais ( e passar a fazer parte do calendário internacional) e palco dos maiores shows musicais (trazendo cada vez mais atrações). A oportunidade aí está. A infra-estrutura da cidade terá que ser repensada e adequada ao seu propósito. Mas precisa ser cuidadosamente planejada. E as decisões tomadas com critério, e não por ímpeto. Evitar erros como o do Complexo Maria Lenk, por exemplo, que mal acabado de construir, já precisará de uma reforma para atender às exigências internacionais, pois não é coberto. Não parece uma loucura que tanto dinheiro tenha sido gasto para não fazer por inteiro? O uso continuo, através de um calendário regular de atividades, evitará que essas constru ções se deteriorem, como já está acontecendo com o que foi construido para o Panamericano. Aliado a isso, precisamos otimizar, profissionalizar e expandir as 3 bases de sustentação para viabilizar qualquer ambição nesse sentido: rede hoteleira, transportes e serviços. Investir em treinamento de pessoal. Profissionalizar a mão-de-obra.Focar na qualidade. Oferecer a excelência. Perder essa consciência e ceder ao imediatismo da aparência, é condenar ao fracasso a oportunidade real, concreta, de transformar o Rio de Janeiro numa cidade rica, próspera e pungente! Seria uma pena transformar o cenário para 2016 meramente, irresponsavelmente, levianamente, num projeto cenográfico do Projac. Apenas caixas de papelão e isopor abandonados ao final do show. A ilusão de um sonho, vazio e sem alma.
A meta de sediar os primeiros jogos olímpicos da America Latina já foi atingido. E que 2016 seja a nossa a linha de largada, não de chegada, para um novo projeto de cidade e cidadania!

05 de outubro de 2009



A viagem de Julio Baltasar em busca de uma miragem

Jul 19th, 2009 | Por Claudio Versiani | Categoria: Artigos

A incrível história de Julio Cesar Baltasar

Por Claudio Versiani


© Claudio Versiani. Julio, o avô e a mãe na casa da família.

Julio Cesar Baltasar nasceu na Guatemala há 20 anos. Ele é formado em “Técnicas da Computação” e trabalha na pastoral da igreja católica na cidade de San Marcos, noroeste do país. Além das funções “informáticas”, ele é um dos líderes comunitários da “Pastoral da Infãncia” desde fevereiro de 2008. Julio se juntou à pastoral em 2005 fazendo trabalho voluntário e aprendendo com sua mãe o ofício de líder comunitário.
Julio assiste às chamadas comunidades carentes, ensinando educação básica, um pouco de medicina natural e alimentação saudável. “Eu queria ajudar as crianças. Minha preocupação é a desnutrição”, diz ele. Se uma mãe está bem informada ela pode alimentar bem seus filhos. Mesmo com poucos recursos, a alimentação natural é saudável, completa. Ele ainda tem que encontrar tempo para ajudar a família no trabalho da terra. Julio, o avô, a mãe e duas irmãs vivem como agricultores na região de San Marcos.
Julio nunca havia sequer pensado em sair da Guatemala até que um dia, em setembro de 2007, seu primo lhe disse: “Vou para o norte. Lá a vida é melhor, tem trabalho e se ganha muito mais”.
O garoto foi fisgado pela frase. A seguir, a história como me relatou Julio Cesar Baltasar.
Uma tarde em que eu estava trabalhando nas terras da família, colhendo milho, apareceu o coiote e perguntou se eu tinha desejo de ir para a América. Disse que sim e perguntei quanto custaria. O coiote respondeu 33 mil quetzals – não tenho dinheiro…o coiote replicou: você paga lá, mas aí o preço sobe para 40 mil quetzals. Eu concordei e marcamos a data de 19 de novembro para sair de San Marcos. Minha mãe não gostou nem um pouco da idéia e disse não. Meu avô também disse não: “é muito perigoso e você é meu filho único”. Eu tenho duas irmãs, filhas de um outro pai, que também abandonou a família.
(Julio chama o avô de pai. O pai verdadeiro abandonou a família quando Julio nasceu, hoje ele é casado com uma outra mulher e não se comunica com o filho)
Acabei convencendo minha mãe e meu avô. Eu tenho um tio que mora em Los Angeles desde 2004. Ele é quem iria pagar o coiote.
No dia 12 de novembro começou a aventura. Eu saí de San Marcos levando uma maleta com dois casacos, duas camisas e duas calças. Nos pés um par de tênis e 800 quetzals ( cerca de 100 dólares) para as despesas da viagem.
No centro de San Marcos, eu fui “repassado” para um outro coiote. De ônibus fomos até a cidade de La Messia, na fronteira com o México. A travessia foi feita à pé e durou um dia. No lado mexicano, chegamos numa vila, Tapachula, e descansamos numa pensão local. No dia seguinte pegamos um ônibus para Vera Cruz. Éramos 32 pessoas comandadas por um coiote.Eu viajava junto com um primo. No total foram 7 dias atravessando o território mexicano e tentando enganar as barreiras policiais. Quando chegamos em Rio Bravo, tivemos que saltar do ônibus antes da última barreira policial. Na última vila do México dormimos 32 pessoas num espaço de 10m2.
No dia seguinte atravessamos um rio de 200 metros de largura agarrados numa corda.
Para entrar em território americano, caminhamos das 3h da manhã até às 5h da tarde. Acho que chegamos no Texas ou no Arizona, não sei. Só sei que era um deserto e fazia muito calor de dia e muito frio de noite. De dia nos escondíamos e de noite caminhávamos.
No segundo dia termnou a comida e no terceiro a água. Eu, um amigo e o meu primo carregamos um companheiro durante boa parte da viagem. Chegamos numa pequena cidade americana, o grupo se dividiu em dois, 16 para cada lado, agora eram 2 coiotes novos, cada um para um lado. A gente queria chegar em Phoenix no Arizona.
Chegamos e encontramos o outro grupo, dormimos de novo 32 pessoas num quarto. Dormir mesmo foi impossível, não dava nem para respirar.
Consegui telefonar para meu tio que mora em Los Angeles e o tio me disse que estava me esperando e que pagaria o preço combinado com o coiote.
Entramos em mais um ônibus alugado em direção a Los Angeles. Não me lembro bem quando foi, mas de repente, o chofer avisou que a imigração estava seguindo de longe o ônibus. O coiote mandou o motorista parar o ônibus na beira da estrada e deu ordem para que todos saissem correndo e tentassem se esconder no mato. Apareceram vários carros de polícia que nos caçaram por um bom tempo. A polícia agarrou todo mundo, todos os 32, menos o coiote que escapuliu.
Fomos todos algemados e colocados num caminhão e levados para a prisão em Phoenix.
Lá na prisão de Phoenix, os imigrantes são marcados no braço com um número e o nome da prisão. Em cada cela dormem quatro. Todo mundo acorda às 5 da manhã com os policiais batendo na grade da cela e às vezes com água fria jogada em você. Eu limpava as celas e os banheiros da prisão, ainda lavava as roupas de cama. Depois consegui transferência para a cozinha da prisão, passei a ganhar um dólar por dia.
Foram 25 dias nesse inferno. Apanhei de cacetete, porque me envolvi numa briga com uma gangue de salvadorenhos para defender meu primo. Um dia a polícia juntou os 32 guatemaltecos e começou a chamar os nomes dos queiriam voltar para casa. Eu e meu primo fomos os dois últimos da lista, foi uma aflição, mas também uma super alegria.
Ficamos mais dois dias no inferno. Me algemaram de novo, mas desta vez eu fiquei feliz. Me levaram para o aeroporto e eu e meu primo embarcamos num avião da Força Aérea da Guatemala.
Eu cheguei no meu país no dia 5 de janeiro, 54 dias depois de ter saído de San Marcos. Até chegar em casa foram mais 5 horas de carona. Quando me viram, a mãe e avô, que não sabiam nada de mim, se puseram a chorar. Eu também. Quero esquecer tudo que passei e que vi. Vi muita coisa triste. No deserto vi sapatos e roupas jogadas e vi até uma perna, isso não vou esquecer. Quase morri e não sei como consegui caminhar tantos dias, meus dois pés eram uma bolha só. Agora só quero saber de ajudar as crianças aqui da Guatemala.
O primo de Julio, depois da terceira tentativa, vive ilegalmente em Los Angeles. Julio não quer mais sair da Guatemala, ele não se esquece do inferno que foi a viagem por mais que tente, ele não quer mais saber de passar um Natal e uma virada de ano tão tristes assim. Se for para sair da Guatemala o destino seria o Brasil, conta ele. “Eu gostaria mesmo é de conhecer o Brasil. Sou fã de Ronaldo e de Ronaldinho. Nunca mais quero ir atrás de uma miragem.



Morreu um fotógrafo lá em casa

May 15th, 2009 | Por PicturaPixel | Categoria: Artigos

Por Luiz Eduardo Robinson A C H U T T I

Fotografia é uma palavra que nomeia visões bastante diferentes. Fotografar é uma ação que guarda em si enorme diversidade de engajamentos e propósitos. Fotógrafos são seres díspares, nômades de origem, que agem na maior parte das vezes como flâneurs solitários. Fotografias foram desiguais desde o princípio, embora sempre âncoras da memória. Fotografar é colecionar fragmentos, partes de tudo um pouco. Fotógrafo tem como ofício retirar do caleidoscópio da vida partes planas que justapostas e fixas possam dar um nexo a ela. Escolher uma fração de tempo para determinado espaço, espaços no tempo. Registrar a vida e ao mesmo tempo viver – viver da vida, retirar do turbilhão momentos que não percam o sentido mesmo que imobilizados e condenados ao passado. Este é o fazer dos fotógrafos sejam quais forem eles.
Houve embates, escolhas, incertezas e lutas desde o princípio. Os fotógrafos surgiram alquimistas sonhadores enfrentando o movimento, prestidigitadores da luz para o assombro das pessoas daquele tempo.
Depois veio a era industrial dar magnitude, agilidade e charme a esses bruxos da “imitação”. Seus desafios e enfrentamentos eram físicos, palpáveis, mesmo que imponderáveis. Elementos químicos saturados, manchas, riscos, umidades, envelopes mal escritos ou embaralhados. Contemplação e espera, essas eram as normas da fotografia na sua época ritualística, quando nos seus quartos escuros, com paciência e gravidade, os fotógrafos re-inventavam o mundo para garantir o imaginário dos Homens.



Morre um fotógrafo, nasce sua obra para ser admirada no conjunto, na medida em que alguém se dedique a decifrar os arquivos deixados. Assim foi construída a história da fotografia no mundo inteiro. Há também os que morreram e o resgate tardou ou ainda não chegou.
Vieram os jornais, veio a cor, depois as revistas, as agências, os livros… Não faz muito, uma nova onda tecnológica veio redefinir tudo aquilo que estava posto. Leveza, abstração, impulsos numéricos, códigos binários para o trânsito intenso de uma verdadeira profusão de imagens. Do tempo de espera sob a luz vermelha, do concreto das manchas, poeira e umidade, passamos aos discos rígidos, sensores, cartões de memória para guardar a memória de tempos de hoje.
Uns fotógrafos morreram, outros estão por nascer em meio a nova norma da virtualidade ainda não completamente anunciada. Há os fotógrafos da transição, com e sem seus envelopes mal escritos e embaralhados, trabalham com Gigas de emaranhadas boas intenções para continuar re-inventando um real que vai se oferecendo cada vez mais rarefeito e intangível. Não mais alquimistas nem magos do tempo alheio, talvez ainda mais sós do que acompanhados, os fotógrafos persistem na fabricação dos rastros de suas próprias existências.
Renasceu um fotógrafo lá em casa.

Porto Alegre, maio de 2009


Fotos © Luiz Eduardo A C H U T T I

PS: A primeira imagem é do Museu do Louvre, feita em 1998 com uma Leica M-6 e filme Tri–x. A garotinha da foto é a bela Julia. A segunda é uma vitrine em Cuba, 1986, câmera Nikon FM e também Tri-X. O Che foi capturado em 2008 na praia de Torres, RGS, com um celular Sony Ericsson W580i 3MP



Meu amigo Otto Stupakoff

Apr 24th, 2009 | Por PicturaPixel | Categoria: Artigos

Por Juan Esteves
24/04/2009



Conheci Otto Supakoff pessoalmente em 2005. O fotógrafo havia voltado para o Brasil, após uma longa temporada no exterior. Fui encontrá-lo com enorme emoção, afinal Otto era uma das minhas referências na fotografia. O encontro, uma entrevista para revista Fotografe Melhor e uma sessão de retratos, foi no escritório da Sofia Carvalhosa, em São Paulo.
Ainda me lembro quando em 1991, na exposição de lançamento do NAFOTO, na extinta Galeria Fotoptica, em São Paulo, minha imagem, um retrato da Pina Bausch ficou ao lado de um clássico seu, um rosto onde se via apenas um nariz e uma detalhe de uma boca feminina, uma mistura se simplicidade e sensualidade total. Acho que a imagem era intitulada: Homenagem a Balthus”.
Otto tinhas estas coisas, essas referências a grande pintores, fazia isso até mesmo em seus ensaios de moda. Em seu retorno a São Paulo, trabalhando para Vogue, chegava a dar uma pequena aula de história da arte a produtora, que, coitada, obviamente não acertava na produção. O que o deixava louco! Ele me mostrava a revista pronta e dizia: “Olha Juan, eu expliquei tudo para ela! Elas são incapazes de fazer o que eu peço. É tudo tão simples, e veja o resultado! Um horror!
Na verdade o que eu via era belo! Fotos maravilhosas! Otto jamais fazia algo ruim, feio, sem elegância. Mas ele era um exigente, refinado, um renascentista perdido na São Paulo feia do século XXI, cuja excelência da imagem era o mínimo! Mas…como todo gênio, um insatisfeito, sempre querendo fazer melhor, sempre achando que podia fazer melhor!
Sua retomada com o fashion brasileiro não durou muito. Não era para menos, ele era capaz de dizer a dona da revista que o problema com a publicação ela era mesma! Também dificultava com as outras, não tinha conta bancária e infernizava aqueles responsáveis pelo seu pagamento, que tinham que fazer malabarismos para pagá-lo.
Do grande apartamento parisiense de 500 metros quadrados, Otto passou a viver num pequeno flat de 30 metros quadrados! Mal cabiam seus prints vintages! E de lá cuidava de seus últimos trabalhos. Um belíssimo livro sobre o Camboja. Meninas adolescentes, fotografadas displicentes pelas ruas. Uma mais linda que a outra….Balthus, novamente! Um retorno a simplicidade do início de carreira, cansado de tanta sofisiticação, de um meio hipócrita, de um simulacro de civilização.
No feriado, de 21 de abril, Otto me ligou em casa. Queria me mostrar com urgência um trabalho de uma criança de rua que ele encontrou e ensinou a desenhar, e um dia deu uma câmera em sua mão. Segundo ele, um gênio! Um puro, que nunca viu uma pintura e uma fotografia sua frente. De fato, o menino tem talento, mas sua história familiar que acabou por envolver o fotógrafo, é complicadíssima!
Como levei minha câmera na bolsa, ao me despedir de Otto fiz uma série de novos retratos! Aqui reproduzidos.


Fotos © Juan Esteves

Não sei porque levei a câmera. Ia ser uma visita rápida, enquanto minhas filhas iam ao shoping ao lado. Mas pensei que talvez pudesse fotografá-las com ele! Afinal, elas somente conheciam o Otto pelo retrato que está no meu livro “Presença”, e por um outro enorme, dele nos Estados Unidos, presente de outro amigo, o fotógrafo Bob Wolfenson, e que está emoldurado no meu estúdio.
Ontem a tarde estava fotografando outro grande artista, Marcello Grassmann, quando me ligaram avisando da morte de Otto, no dia seguinte a minha visita! Os dois se conheciam há anos, e ficamos lá…minutos parados, sem saber o que dizer um ao outro. Em homenagem ao querido Otto, peguei minha câmera e voltei a trabalhar, pensando no quanto ele foi importante na minha vida, e de tantos outros fotógrafos, e no privilégio de ter sido seu amigo. Melhor ainda, de retratá-lo!



Edição, corte e manipulação: qual o limite?

Apr 4th, 2009 | Por PicturaPixel | Categoria: Artigos

Por Rinaldo Morelli

Terça, 24 de março de 2009.
Na Câmara Legislativa do Distrito Federal acontece mais uma reunião da Comissão de Orçamento Economia e Finanças – CEOF.
Entre algumas opções disponibilizadas ao Chefe do Setor de Divulgação para colocação no site seguiu a foto de um plano geral, onde ao fundo, para compor a foto e contextualizar a dinâmica das reuniões, estão os assessores. Uma valorização consciente do fundo e da diagonal.



Não temos editor de fotografia. No exercício, e crença, de seus poderes o Chefe de Setor de Divulgação cortou a foto na altura da cintura dos assessores.



Mudou o discurso proposto pelo fotógrafo, propondo a revelia do autor uma nova imagem.
O laboratorista, agora imbuído das missões de tratamento das fotografias e arquivamento, achou por bem, para “limpar a imagem”, apagar os assessores do fundo, alegando estar limpando a imagem.


Fotos © Rinaldo Morelli

A foto é simples, corriqueira até, quase institucional, mas quero trazer aqui a velha discussão sobre a edição, no sentido de corte, e a manipulação da imagem jornalística.
Há questões importantes permeando este fato. Fato que em algumas redações pode até ser corriqueiro
A questão do direito a integridade de sua obra está inclusive previsto na Lei do Direito Autoral. Não caberia polemizar, embora saibamos que Lei e cumprimento desta muitas vezes não andam de mãos dadas.
Outro enfoque para o debate é o papel, e atribuições, do editor de fotografia.
Qual é o limite, de direitos e éticos, para um editor de fotografia(que não é o caso) cortar uma fotografia?
Qual o limite ético de manipulação da fotografia jornalística? Quando estaremos esvaziando o documento jornalístico?
Pode o repórter fotográfico ser coerente com seu discurso enquanto sua fotografia estiver tramitando por setores que a manipulam com cortes e interferêrencias digitais.
A construção da memória a partir das fotos proposta por um fotógrafo fica condicionada pela leitura dos editores, e diagramadores desta fotografia, mudando a foto original muda-se o discurso podendo construir um legado histórico diferente daquele proposto pelo autor da imagem.
Há tempos caminhamos para o dissolvimento de vários limites. Não podemos seguir as ondas sem saber para onde elas estão nos levando.
Ao se dissecar e manipular uma fotografia, que é uma obra autoral, construímos um discurso permissivo e implícito que qualquer um pode fotografar jornalisticamente, e alguém, com certeza com mais competência e capacidade, depois vai “melhorar” a fotografia no corte e no photoshop.

www.rinaldomorelli.com



Propriedade e desrespeito.

Mar 27th, 2009 | Por PicturaPixel | Categoria: Artigos

Por Guaracy Monteiro

Eu tenho visto muita conversa na rede (e fora dela) sobre direitos autorais, de imagem, manipulação, etc. Parece que todos querem um lugar ao sol. O que parece ocorrer é que a internet deu maior visibilidade aos problemas existentes anteriormente e também abriu um maior espaço para a exposição de idéias. Nada além disso. O que acontece já acontecia e, parece, vai continuar acontecendo.

O formato de distribuição da mídia propicia uma maior facilidade para que as coisas aconteçam. Os uns e zeros trafegam de um ponto a outro por cabos ou pelo ar e não há muito que se possa fazer. A segurança é igual ao elo mais fraco e implica, necessariamente, em impôr dificuldades tanto para quem faz quanto para quem vê.

A manipulação de imagens sempre existiu, seja ela na revelação, na ampliação, na aplicação de filtros e efeitos, na escolha das imagens que seriam apresentadas, na escolha de um angulo que favoreça determinado aspecto, enfim. Os programas de manipulação de imagem apenas facilitaram o que antes era feito por horas em um quarto escuro e por quem possuia conhecimentos mínimos para tal, hoje pode ser feito em minutos (ou horas também) em um programa por pessoas que possuam conhecimentos mínimos para tal.

Mas o mais interessante é a parte dos direitos que muitos alegam. Cópia e utilização de trabalhos dos outros também é um fato que ocorre há bastante tempo. Antigamente possuia uma menor visibilidade e ficava mais restrito a grupos pequenos. As músicas podiam ser gavadas em uma fita cassete de uma rádio, um disco, um show, outra fita e escutada dentro do carro ou em casa. Fazer cópias de filme da tv ou de outras fitas. Podia ser feito uma fotocópia (ainda hoje ocorre) de um livro, artigo ou outro material para uso próprio ou de pequenos grupos. Como não havia internet, a visualização era restrita.

Com o computador e a transformação de todo material em uns e zeros, tudo ficou mais fácil. A digitalização do material é rápida e mais barata, já que não é necessário a impressão e pode ser visto diretamente no computador. A cópia não autorizada de programas teve seu início. Tentaram as mais diversas formas de proteção para impedir a cópia pirata mas apenas dificultam para os menos esclarecidos. A pirataria continua.

A internet veio “facilitar” o processo ainda mais e torná-lo mais globalizado. Com as redes P2P as coisas ficaram ainda mais fáceis. Basta um computador conectado na internet e é possível baixar músicas, filmes, livros, enfim, tudo o que está armazenado em outro computador. Como uma imagem é como um documento qualquer quando está no computador (uma sequencia de zeros e uns), seria ingenuidade pensar que a cópia ilegal não ocorreria.

Muito mais grave o fato se torna quando vemos sites mantidos por profissionais que infringem o que eles próprios consideram ilegal. Tenho visto diversos colocando imagens sem créditos, sendo que alguns alegam que foram obtidas na internet, armazenam em local diversos, etc. É aquele negócio de “casa de ferreiro espeto de pau”. Da mesma forma vejo fotógrafos amadores (ou nem tanto), utilizando programas piratas (que é considerado crime) para manipulação (aqui pode ser apenas para correções, mas não vem muito ao caso) das imagens e colocação de assinatura ou logotipos para que os outros não se apropriem de suas imagens (fato que presenciei). Será que os fins justificam os meios ou seria um desconhecimento do significado de hipocrisia? Alguém poderia começar uma alegação com “Mas…”. Desculpe. Nem mas nem meio mas. As coisas simplesmente são ou não são. Algo como: “Eu pirateio e sou ilegal mas não quero que você faça o mesmo”. Também grave é o fato de mídias impressas publicarem fotos sem informar a autoria das mesmas, atribuindo todo o trabalho a um tal de ‘divulgação’ (esse cara deve ganhar um monte de dinheiro). Grave da mesma forma quando em listas ou fóruns de pessoas ligadas ao meio (fotoclubes, etc) existe a publicação de imagens sem créditos e/ou fontes.
Na época das olimíadas, recebi um endereço do Globo Esporte. Crédito? Agência/EFE, Agência/Reuters. Quem foi/foram os fotógrafos? Então, existe uma preparação atencipada para um evento complexo, a seleção de equipamentos que custam caro como, por exemplo, o caso do Vincent Laforet da Newsweek (tá certo que alí tem uma boa parcela de propaganda do fabricante, mas não vem ao caso), deslocamentos, ficar em local que pode não ser confortável durante horas e carregando peso para fazer boas fotos e outros inconvenientes por nada? Foram as tais agências que fotografaram? Uma coisa é certa. Se outras mídias creditaram o fotógrafo, mesmo sendo de agências como Reuters, Getty e outras, ou o site da Globo agiu de má fé ou faltou competência dos responsáveis.
Felizmente existem mídias sérias, que colocam os excelentes trabalhos devidamente creditados. Se alguns colocam os créditos, qual o motivo de outros não colocarem. A utilização indevida das imagens na internet ocorre diariamente e, o autor da foto, pode muito bem processar o ou os infratores legalmente, exigindo que seja ressarcido bem como lhe seja atribuída a autoria da imagem. Se você acha que tem o direito sobre a imagem, a sugestão legal é: “Procure um advogado e entre com uma ação contra os resposáveis”. É claro que nem todos os casos são fáceis de localizar os infratores. Para quem se acha no direito e quer um dinheirinho extra (que lhe é devido), é a opção mais correta.
A utilização ilegal de programas, imagens e outros elementos que possuem licença reservada não possui justificativa. Existem diversos tipos de licenças que permitem a utilização sem o pagamento por terceiros para finalidade comerciais ou não. Quem define como a imagem ou texto deverá ser utilizada é o autor. O fato da imagem estar em um site de compartilhamento de imagens não significa, necessariamente, que possa ser utilizada por qualquer um em qualquer lugar.
Para o fotógrafo fica praticamente impossível verificar a utilização da imagem em um ambiente tão gande como é a internet. Então, a responsabilidade é de todos, isto é, uma certa união na classe para que a fiscalização fique um pouco mais fácil. Não preciso procurar apenas as minhas fotos. Quando ver uma foto de alguém sem crédito ou usada indevidamente posso, ou melhor, devo avisar o autor se souber como. Não interessa se é amigo ou não. Ação!



Bem, a história não começou aqui e nem irá terminar aqui. Enquanto sites e profissionais que deveriam ser sérios não se derem o respeito, fica tudo como está. Se os profissionais (ou amadores) não exigirem os seus direitos, fica tudo como está. Se você desenvolveu um site e está utilizando imagens com direitos reservados, saiba que pode ter que desembolsar algum dinheiro quando menos esperar e não fica tudo como está.

Links relacionados:

Pare de vender suas imagens – Gilberto Tadday
Fairey, Mannie, AP e o crédito fotográfico – Gilberto Tadday


PS: O artigo de Guaracy Monteiro foi originalmente publicado no blog Fotomix. Eu li, gostei e escrevi para o Guaracy. Ele gentilmente liberou e enviou para os leitores de Pictura, que como sempre, agradece.



A busca incessante da realidade. Por Rinaldo Morelli.

Mar 3rd, 2009 | Por Claudio Versiani | Categoria: Artigos

© Rinaldo Morelli



O fotojornalismo sempre teve a pretensão, e a busca incessante, pelo registro da realidade. Tem sido sua pauta desde os mais remotos tempos históricos do surgimento desta linguagem. Porém, vivemos outros tempos. O eterno desenvolvimento da tecnologia, que a meu ver não é necessariamente uma evolução, tem contribuído para derrocada definitiva de crenças na imparcialidade documental de uma fotografia. O fotojornalismo também vive este momento.
Vale lembrar que a nossa relação com a fotografia, já impregnada em nossa cultura, sempre atribuiu valores e exigiu que certos papéis fossem desempenhados pela fotografia. Depositamos expectativas e atribuímos funções que a fotografia não tem condição de atender.
Novas ferramentas no capturar e tratar a imagem constroem um novo repertório visual, que aos poucos vamos anexando a tantas outras referências acumuladas nestes mais de 160 anos de fotografia. O fotojornalismo mergulha neste universo de possibilidades, mas também não pode abandonar seu compromisso com a realidade dos fatos.
Vejo que a busca do momento decisivo, filosofia eternizada por Cartier Bresson, é o que dá credibilidade hoje a uma cobertura factual. É preciso congelar um “instante mágico” para se acreditar que a foto não foi montada em seu cenário. Mas ainda poderá pairar a dúvida da montagem no momento de pós-produção, para onde se deslocou o momento decisivo em tempos de manipulações digitais. Acredito que hoje caminhamos a passos largos para a desconstrução de paradigmas que nortearam inclusive nossa relação com a própria realidade.
Lembremos o fotojornalismo tem um compromisso com a realidade já há tempos vivencia alguns dilemas. São perguntas que permeiam todo o processo de produção até sua publicação, tais como: a manipulação, a autoria, a edição e suas intenções(do fotógrafo, do editor e do veículo), a ideologia dos meios de comunicação…
Hoje o fotojornalismo bebe na fonte das tecnologias digitais, enriquece suas possibilidades de apreensão da imagem, propõe novos elementos estéticos e talvez esteja se distanciando da realidade. Por muito tempo ainda veremos, talvez até por uma necessidade nossa, o fotojornalismo como mensageiro de uma credibilidade da imagem fotográfica, mas a realidade, paulatinamente, estará desconstruindo seu relacionamento com a fotografia.
Enfim, a fotografia é uma linguagem, e assim pode dizer mentiras, também pode dizer verdades. A nós sobrarão apenas as crenças.



24 anos em uma imagem perdida.

Feb 26th, 2009 | Por Claudio Versiani | Categoria: Artigos

Sobre esta foto, o que eu posso dizer é que foi um encontro raro de quatro presidentes do Brasil numa solenidadde no supremo. Todos os fotógrafos queriam fazer a foto, mas no momento tão esperado do encontro dos presidentes , quando o presidente Lula foi cumprimentar os “ex”, todos os fotógrafos correram pro canto esquerdo do praticável reservado aos fotógrafos no fundo. Como eu estava acompanhado de outro colega do Estadão, o Dida Sampaio, que correu pra esquerda junto com os outros, eu pensei rápido… vou ficar no canto da direita e tentar outro ângulo. No momento do encontro, que foi super rápido, o ministro do supremo, o Eros Grau, que tem um físico avantajado, entrou na frente do grupo de fotógrafos da esquerda, e eu sozinho, na direita, consegui fazer a foto. Tive sorte e aproveitei.
André Dusek


© André Dusek

Caro Padrinho, desde que vi essa imagem pela primeira vez, soube que um dia teria que escrever sobre ela. Chegou a hora de exorcizar alguns fantasmas…

Penso num monte de adjetivos para descrever o sentimento que os quatro últimos presidentes brasileiros (por onde andará Itamar Franco?) geram no meu cérebro. Talvez a palavra mais correta seja melancolia. Poderia ser tristeza ou ainda a expressão: Brasil, país do futuro! Só se for futuro mesmo, porque o passado e o presente nos maltratam e muito.

Eu nasci em 1954, há 54 anos. Meu pai gostava de Juscelino Kubitschek e eu também, sem saber porque. Depois Jânio da Silva Quadros. Eu achava ele engraçado. Não era! João Goulart, interessante. Eu começava a me interessar pelo Brasil. Vieram os militares, os milicos dizia meu pai e todo mundo. Mas eu só tinha 10 anos de idade. Se meu pai não gostava, eu também não gostava. Já estava mais do que interessado, queria entender e meu pai tentava explicar. O dia em que JK foi cassado pela ditadura foi um choque familiar na nossa casa. Meu pai e minha mãe perderam o rumo e o prumo.

1968, 14 anos, Beatles, Roberto Carlos, Chico e os novos baianos e a vida seguia um pouco vigiada. No Brasil dos milicos tudo era proibido, era esquisito. Mas para um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones nem tanto, a vida rolava quase tranquila.

Mas a ditadura apertava cada vez mais e aos poucos viver tranquilo foi impossível. A adolescência acabou, a universidade chegou em 1974 e durou até 1979. Não militei no movimento estudantil, porém a Faculdade de Comunicação da Universidade Católica de Minas Gerais era política pura. Em 1978 já estava na rua trabalhando como repórter fotográfico do jornal O Globo na sucursal de Belo Horizonte. Fotografei Ernesto Geisel duas vezes e morri de medo do homem. Veio João Batista Figueiredo e a ditadura começou a espernear ou a se debater. Tinha os dias contados. João disse que prendia e arrebentava. O atentado do Riocentro arrebentou com ele e com o país, mas ninguém foi preso. Vieram as Diretas Já e todo mundo acreditou. Como éramos bobos. Dr. Tancredo trabalhava nos palanques pelas Diretas e nos corredores para assegurar sua eleição no colégio eleitoral. Se não bastassem várias tragédias, todas uniformizadas, de Castelo a Figueiredo, mais uma se abateu sobre a nação brasileira. Morreu Dr. Tancredo. Lá vem José Ribamar.

Chegamos na sua foto. Não vou gastar muito tempo com José Sarney. Foram cinco anos muito complicados e que não deram em nada. Ou em quase nada, deram em Fernado Collor de Mello. Quase ganhamos com Luis Inácio Lula da Silva. Não fosse aquele segundo debate em que Lula se mostrou estranho e sem ação. Lembra da história da pasta que Collor teria na mão e que foi por isso que Lula ficou quieto e sei mais lá o que?

Fernando Collor de Mello dividiu o país ao meio, os bons e os maus, os honestos e os desonestos. Veio o impeachment, o povo na rua e agora o país vai. Mas vai de Fusca, chegou Itamar, o moderno e ficamos por aqui.

Fernando Henrique Cardoso. Agora vai de verdade, o homem é doutor de verdade. Mas FHC fumou e não tragou, disse que Deus não existe e depois desdisse e mandou todo mundo esquecer o que tinha escrito. Eu já esqueci faz tempo e olha que eu não fumei nada. Mas não esqueço que FHC vendeu meio Brasil ou Brasil e meio e…nada de novo. Se reelegeu por mais 4 anos e nada de novo. Claro, não me esqueço do Real. Agora todo brasileiro come yogurte todo dia e um frango no domingo. Que maravilha!

OK. Finalmente Luis Inácio Lula da Silva. Agora sim, o PT no poder. Até que enfim, estamos esperando desde de 1989. Chegou a revolução. Honestidade no poder, agora vai. Lula sabe o valor da educação. O Brasil vai mudar! Mudou sim. Mas não durou muito. Veio o mensalão e o governo do PT acabou. E Luis Inácio foi junto.

O Lula que desfila pelo Brasil e pelo mundo não é nem um arremedo de um sujeito que um dia disse que não tinha medo de ser feliz. Ele poderia ter sido uma das grandes personalidades do planeta. Hoje é só uma biografia manchada.

Padrinho, olho para sua foto e fico triste. São 24 anos perdidos. A foto é sensacional. História pura! Já a nossa história é a triste história da política brasileira.

Dias melhores virão.

Claudio Versiani