
© Sérgio Moraes/Reuters
E o Rio brilhou!
Por Maria Alice Mazzarolo
Numa apresentação impecável, o Rio conquistou o direito de sediar as Olimpíadas de 2016!
E o Rio precisou abrir espaço, na sexta-feira, para abrigar todo o resto do Brasil, que também se sentia carioca! A torcida sofrida, o coração batendo forte, a expectativa angustiante até a explosão da emoção contida, do orgulho de alma lavada! Cartas marcadas ou não, decisão política ou não, foi uma vitória limpa, justa e merecida.
Temos que reconhecer e parabenizar o preparo da delegação brasileira. Uma apresentação exemplar. Nada a acrescentar ou remover. Uma postura segura, controlada, digna. Discursos corretos, diretos, claros, objetivos. O filme maravilhoso, com a musica muito bem escolhida, retratou com fidelidade quem somos. Sem maquiar os problemas já conhecidos e arraigados, conseguiu captar a essência da cidade e de seus habitantes. Resgatou a auto-estima, mostrando para o mundo muito mais do que mulheres semi-nuas ou apenas sua paisagem exuberante. Mostrou o dia a dia, o cidadão comum, a cidade na sua intimidade. Só que havia mais, muito mais por trás daquelas imagens. Havia a emoção de uma nação, havia o sonho de tantos atletas, havia o suor de todos que batalharam para chegar lá, havia as areias tomadas de verde e amarelo, havia todos diante da TV, havia o esboço da consciência cívica, havia a esperança de que podemos ser mais. E efetivamente podemos.
Não tenho dúvidas de que será um evento inesquecível! Bem organizado, alegre e muito criativo! Será um espetáculo que nada ficará a dever aos já apresentados pelos outros países. Com um diferencial. Os atletas e visitantes não se surpreenderão apenas com o show de abertura. Não se surpreenderão apenas com os resultados das competições cada vez mais acirradas. Não se surpreenderão apenas com a superação desses atletas fantásticos. Não se emocionarão apenas com a emoção de cada vitória, cada resultado…ou derrota. Não se emocionarão apenas com os hinos e bandeiras hasteadas. Não aplaudirão apenas as medalhas conquistadas. Os atletas e visitantes se surpreenderão a cada dia com a festa que ocorrerá fora das competições. A festa da cidade, que não fará parte de nenhum ensaio prévio. A festa natural, espontânea e contagiant e. O pulsar de uma cidade em festa. De verde e amarelo, vibrando, cantando, sorrindo, apoiando, se emocionando. Nas ruas, praças, praias, ônibus, feiras, por todo lado. Um show de espírito esportivo e de hospitalidade! ! O atleta extra, que fora das competições oficiais, brilha como a maior das atuações! Medalha de ouro!
Minhas preocupações são outras.
Primeiramente, com o evento em si e o que ele significa. Ou poderia significar. Ou deveria significar. Outro dia, li que a meta do COB para os Jogos de 2016 seria incluir o Brasil entre os 10 melhores colocados. Uma meta audaciosa para quem ainda não tem tradição olímpica e desempenho ainda bem aquém do almejado. Não sei como poderíamos, realisticamente falando, em apenas 7 anos, investir, treinar e formar campeões olímpicos suficientes para garantir essa colocação. Num pais onde patrocínio é difícil e condições de treinamento precárias, como seria possível? Precisamos pensar nessas Olimpíadas como um marco. O início da mudança efetiva da nossa tradição esportiva. Aproveitar a euforia, a motivação, a curiosidade e a disponibilidade, para criar um grande, enorme, gigantesco celeiro de novos atletas! Sair à busca desenfreada por novos talentos! Criar centros de treinamento, criar as oportunidades, traçar um plano contínuo de renovação de atletas. Mas com critério, planejamento. Pensemos com ambição, mas com humildade. Sem a soberba de quem ousa ser mais do que é, pois seria um desperdício de tempo e dinheiro. E não temos tempo ou dinheiro para desperdiçar. Já conseguimos formar essa tradição no vôlei. Também na ginástica olímpica. E começamos na natação. É possível. Gostaria de ver o mesmo com o Atletismo. Temos tudo para sermos uma referencia no atletismo. Por que ainda não o somos?
Num país onde o sistema educacional precário sucumbe, moribundo, talvez essa seja a nossa oportunidade única , e última , de reverter o nosso destino! E, através do esporte, criar para as gerações futuras oportunidades que a educação tradicional precisaria de gerações e gerações para alcançar. Precisamos apostar e pensar nessa nova geração! Abrir as portas para essa juventude, que, com a expectativa de 2016, terá a chance de vivenciar de perto a mágica desse mundo dos grandes, dos melhores. O pódio da conquista de sonhos. Seduzir com o brilho das medalhas. Mostrar aos nossos jovens o que o esporte pode propiciar. Que a pratica do esporte ensina, na pratica, os valores básicos humanos, comunitários, sociais, éticos e culturais que determinam o valor de qualquer nação. Que o sucesso requer disciplina, determinação, obstinação, repetição e muito esforço e trabalho. Que toda conquista pressupõe um trabalho de equipe. Que vencer ou perder requer dignidade. Que o esporte derruba preconceitos e barreiras. Que o esporte nivela desigualdades. Que há uma saída. Que objetivos têm que ser reais. Que há sonhos possíveis. Torço para que o Brasil consiga sua posição de destaque entre os melhores do mundo em 2016. Mas torço muito mais pelas posições que ocuparemos em 2020, 2024, 2028 e daí por diante. Pois significará que conseguimos consolidar nossa decisão, como país, independente dos holofotes do mundo, de apostarmos na nossa vocação e talentos esportivos.
Minha outra preocupação é com o Rio de Janeiro pós Olimpíadas. O que será do Rio? O que está sendo pensado para o Rio? Que projeto de cidade está sendo idealizado? Não podemos perder essa chance de retomar o nosso destino e escrever uma história diferente e mais digna. Aproveitar o investimento e geração de recursos para criar o Rio do futuro. Mas o futuro presente, imediato. Precisamos construir a Olimpíada de 2016 com a responsabilidade de preparar o Rio para cumprir sua inequívoca vocação. Com sua geografia diferenciada, sua beleza natural única, seu clima favorável e um povo reconhecido por sua alegria e informalidade, o Rio pode tornar-se o maior centro turístico da America Latina. Além do turismo tradicional, já habitual de verão, carnaval e a comemoração de Ano Novo, podemos fazer do Rio o maior centro esportivo da America Latina (sediando jogos panamericanos, e campeonatos sulamericanos e mundiais das diversas modalidades), sede das mais renomadas feiras e exposições internacionais ( e passar a fazer parte do calendário internacional) e palco dos maiores shows musicais (trazendo cada vez mais atrações). A oportunidade aí está. A infra-estrutura da cidade terá que ser repensada e adequada ao seu propósito. Mas precisa ser cuidadosamente planejada. E as decisões tomadas com critério, e não por ímpeto. Evitar erros como o do Complexo Maria Lenk, por exemplo, que mal acabado de construir, já precisará de uma reforma para atender às exigências internacionais, pois não é coberto. Não parece uma loucura que tanto dinheiro tenha sido gasto para não fazer por inteiro? O uso continuo, através de um calendário regular de atividades, evitará que essas constru ções se deteriorem, como já está acontecendo com o que foi construido para o Panamericano. Aliado a isso, precisamos otimizar, profissionalizar e expandir as 3 bases de sustentação para viabilizar qualquer ambição nesse sentido: rede hoteleira, transportes e serviços. Investir em treinamento de pessoal. Profissionalizar a mão-de-obra.Focar na qualidade. Oferecer a excelência. Perder essa consciência e ceder ao imediatismo da aparência, é condenar ao fracasso a oportunidade real, concreta, de transformar o Rio de Janeiro numa cidade rica, próspera e pungente! Seria uma pena transformar o cenário para 2016 meramente, irresponsavelmente, levianamente, num projeto cenográfico do Projac. Apenas caixas de papelão e isopor abandonados ao final do show. A ilusão de um sonho, vazio e sem alma.
A meta de sediar os primeiros jogos olímpicos da America Latina já foi atingido. E que 2016 seja a nossa a linha de largada, não de chegada, para um novo projeto de cidade e cidadania!
05 de outubro de 2009