Eliott Erwitt. Uma lição bem humorada!
Feb 27th, 2009 | Por Claudio Versiani | Seção: Juan Esteves
Por Juan Esteves

© Juan Esteves
Elio Romano Ervitz nasceu na França em 1928, filho de pais russos, que tiveram que deixar o país após as revoluções de 1917 que estabeleceram o poder bolchevista e o estado soviético. O nome ” Romano” foi adotado porquê seu pai estudou na Universidade de Roma. Elio, viveu seus primeiros dez anos na Itália, mas o fascismo o levou para Nova York, nos Estados Unidos, em 1939 e depois a família se instalou definitivamente em Los Angeles, na Califórnia, em 1941.
Graças aos trajetos familiares e, “Graças ao ditador Benito Mussolini”, como ele diz, se tornou o americano Elliott Erwitt, um dos mais importantes fotógrafos de todos os tempos, membro da mais celebrada agência de fotografias, a Magnum Photos. O pai, socialista convicto, sempre “culpou” a mãe por ter que deixar a terra prometida do paraíso soviético. Sem culpa, Erwitt mora em Nova York, e acha muito bom ser americano, embora diga que nos tempos do governo George W. Bush, não falaria isto. Sobre o governo Obama, provavelmente ainda é muito cedo para dar uma opinião.
Nestas mudanças, Erwitt aprendeu quatro idiomas, que segundo ele, foram muito importantes na sua carreira como fotógrafo. A vida de imigrante também serviu para facilitar suas andanças como fotógrafo pelo mundo, reunindo um portifólio inigualável, até hoje celebrado onde quer que ele vá. Inclusive no Brasil, onde esteve em 2005 para um workshop, e para inaugurar, com a mostra “Magic Hands “, a Leica Gallery, uma das sete espalhadas pelo mundo todo. Infelizmente, em 2007, a marca alemã preferiu encerrar suas atividades culturais no país, e após uma breve carreira com algumas boas exposições, o espaço deixou de existir.
Parte de um trabalho extenso e criterioso, as imagens expostas para o público paulistano eram flagrantes feitos em diversos países e também únicos momentos históricos. Com harmonia e composição raras, se tornaram ícones do vocabulário fotográfico de conteúdo. Aliados a uma excelente técnica, provam que todas as circunstâncias reunidas num só momento, não são fruto da sorte, e sim, resultado de um investimento no máximo apuro. Suas fotografias dão forma a plenitude de se estar no lugar certo, na hora certa, e com a lente certa.
O reconhecimento mundial de sua obra foi fácil de se constatar em uma palestra aberta no Curso de Bacharelado em Fotografia do Centro Universitário Senac, em São Paulo. Mais de 120 pessoas se reuniram, sentados em cadeiras, de pé, ou espalhados pelo chão, para ver suas imagens e ouvir suas histórias, o aplaudindo efusivamente.
Em 2005 fazia mais de quinze anos que não punha os pés no Brasil. Erwitt já esteve no país “pelo menos umas seis vezes”. Todas elas para produzir imagens para publicações internacionais. O fotógrafo também foi um dos primeiros fotógrafos internacionais a fotografar Brasília, com suas avenidas ainda de terra. A imagem está em alguns de seus livros, e na edição de 1963 da Photography Annual, em página dupla. Também fez fotografias memoráveis no Rio de Janeiro, e, após seu workshop – como todo fotógrafo estrangeiro – foi mais uma vez para Salvador, na Bahia, fotografar.
Com um bom humor reconhecido tanto em suas fotografias, quanto por suas atitudes, é pai de seis filhos e avô do mesmo número. Entre os filhos mais próximos da sua profissão, estão um fotógrafo em Los Angeles, e outro editor de fotografia assistente, na celebrada publicação americana Vanity Fair, revista para qual, ele mesmo as vezes trabalha. O fotógrafo também está no seu quarto casamento, desta vez, com uma escritora. Com o humor que lhe é peculiar, diz que “Nem todo mundo me acha engraçado! Pelo menos, nenhuma das minhas ex-esposas me acha engraçado “.
Erwitt é um daqueles raros profissionais consagrados onde quer que vá. Apesar de um alto profissionalismo, ainda mantém o frescor de quem empunha a câmera pela primeira vez. Não esconde suas opiniões, salvo raras exceções, quando fala sobre seus ex-colegas de agência Magnum, e é pródigo em transmitir sua experiência aos mais jovens. Tudo isso regado com uma larga dose de divertimento, estampado em suas imagens e no seu próprio comportamento.
Eclético, praticamente já fez exposições no mundo todo. Além do fotojornalismo, também trabalha com publicidade, e tem seu trabalho vendido por galerias de Paris, Nova York, Los Angeles, Tóquio, Berlim, entre outras cidades. Já publicou dezenas de livros – em inúmeras linguas – e de todas grandes editoras internacionais, só teve problemas com a inglesa Phaidon, que o processou por questões de copyright. Ele alerta os marinheiros de primeira viagem: “Olhem bem o contrato que assinam. Desconfiem dos contratos com muitas páginas!”
Entre seus livros mais importantes estão Personal Best (Tenue,2006), Eliott Erwitt Handbook (Quantuck Lane Press , 2002) que traz um ótimo texto do escritor Americano Charles Flowers, Eliott Erwitt- To the Dogs (Power House 1992) um registro muito bem humorado sobre os cães e seus donos, Eliott Erwitt –On the Beach (Norton, 1991) uma paixão eterna pelo mar, The Private Experience (Petersen 1974) onde ele relata sua experiência profissional, seus insights, e Eliott Erwitt –Personal Exposures (Norton & Company, 1988) uma compilação bem completa de sua obra. No total são dezessete publicações, algumas já esgotadas e outras já em diversas reedições.
Erwitt é um dos raros fotógrafos autorais que também atua em publicidade. Contudo, é necessário destacar que seu trabalho “publicitário” não é convencional. Muitos clientes são os governos de diversos países, para quem registra as cidades para divulgação do turismo, o que o aproxima do jornalismo novamente. Também, mesmo quando suas imagens são para campanhas como a do wisky escocês Chivas Reagal, para as luminárias da italiana Artemide, ou para os carros da japonesa Nissan, é quase como se estivéssemos vendo seus snapshots, e a predominância é o branco e preto, que emprega através de negativos pequenos, médios e até mesmo grandes. “Sem preconceito quanto aos formatos”, diz o fotógrafo.
Na publicidade, ainda há espaço para seus snapshots consagrados, como aqueles da série de cães – extremamente humorística – cujo terceiro livro, “Whoof” está para ser publicado . O caráter onomatopaico do título tem sua razão no comportamento singular do fotógrafo: Erwitt costuma latir para os cães que fotografa para provocá-los .”Cães são como pessoas, só que com mais pelos! Melhor, não são chatos como elas” .
Erwitt também trabalhou para empresas, como a americana Westinghouse. Contudo, o seu lado jornalístico não o abandona. Durante o trabalho para a empresa, que fabrica de reatores nucleares a geladeiras domésticas, fez uma imagem memorável do então canditado ao governo americano Richard Nixon (1913-1994) se encontrando com o premiê soviético Nikita Kruchev (1894–1971). Os dois parecem estar tratando de assuntos importantíssimos, até mesmo discutindo, mas o fotógrafo revela sem dramatizar e com muito humor: “Provalmente estavam falando qualquer banalidade no momento da foto”.
Depois de passar décadas produzindo para editoriais, ele afirma taxativamente: “O editorial ( fotos para revistas e jornais ) está acabando, praticamente não existe mais” se referindo ao decréscimo do número de imagens publicadas atualmente e a banalidade da maioria das publicações. São raras mesmo as publicações que seguem a tradição estabelecida por revistas como as americanas LIFE e Look Magazine. Estas, no auge chegavam a publicar ensaios fotográficos com mais de vinte imagens. O fotógrafo lembra a histórica briga entre o grande documentarista americano Eugene Smith (1918-1978 ) com a LIFE. “Ele queria publicar quarenta e tantas imagens numa materia e a revista apenas umas vinte”.
Sobre seu workshop no Brasil em 2005, comentou: “Não gosto muito de ensinar, não me sinto um professor, este é meu segundo workshop. O primeiro foi há 25 anos no Mois de la photo (Mês da Fotografia), em Arles, na França.” Mas, é muito improvável que isto seja uma verdade completa. Apenas a sua palestra no auditório do SENAC já foi uma verdadeira aula para quem soube ouvir nas entrelinhas de suas imagens, acompanhadas pelos seus divertidos comentários. Entre muitas gargalhadas, os ouvintes com certeza sairam de lá no mínimo com parte da história contemporânea da fotografia na cabeça.
Ainda rapaz, Erwitt deixou o sul da California, onde morava. “Lá não estava acontecendo nada para mim”. Ele queria ser como (Amedeo) Modigliani(1884-1920), o pintor italiano. Adorava suas pinturas, suas formas e principalmente o charme da boemia em que o artista vivia. Em parte, Erwitt deve sua carreira ao lendário Edward Steichen (1879-1973), fotógrafo e curador do Museum of Modern Art – MoMA por mais de uma década, responsável pela antológica mostra “The family of man” de 1955, com 503 fotografias, que além do museu, viajou por oito anos, exposta em trinta e sete países. “Graças a Steichen, consegui meu primeiro trabalho comercial” revela o fotógrafo .
Um dos momentos mais importantes na carreira de Erwitt aconteceu em 1951, quando foi recrutado pelo exército americano. Numa de suas folgas, em Nova York, ele encontrou o fotógrafo Robert Capa (1913-1954). O fotógrafo conta: “Capa estava começando uma pequena agência, a Magnum” – em forma de cooperativa, a Magnum Photos foi criada em 1947 por Capa, Henri Cartier-Bresson (1908-2004), George Rodger (1908-1995) e David “Chim” Seymour (1911-1956) – “ Capa disse para eu procurá-lo em Paris, qualquer hora”. Foi o que ele fez, na primeira oportunidade. Em 1953, deu baixa do exército, tirou o uniforme e assinou um contrato com a agência da qual é membro até hoje.” Eu era um freelancer por natureza. A idéia de trabalhar para uma empresa era horrenda”.
O sistema de cooperativa da Magnum era sua melhor afinidade. Uma das melhores definições sobre ela foi dada por Cartier-Bresson: “Magnum é uma comunidade de pensamentos, a qualidade humana compartilhada, a curiosidade pelo que está acontecendo no mundo, o respeito por estes acontecimentos e o desejo de transcrevê-lo visualmente”. Muitos dos grandes nomes da fotografia, como o suíço René Burri, que também esteve no Brasil, estão de acordo, embora, tanto ele, quanto Erwitt, achem que para alguns fotógrafos, o dinheiro fala mais alto, e não se adaptam ao sistema, ou melhor à “irmandade”, como às vezes preferem chamar a agência. Ele faz uma distinção entre a obra e a personalidade deles, mas prefere não nomear e criticar ninguém.
Elliott Erwitt viaja muito e fotografa de tudo. Em 2005 fez uma série de fotografias sobre pinguins, na Argentina, pouco antes de vir ao Brasil. Ele faz muitos portraits para revistas, e por muito tempo filmou para televisão. Ao todo, fez 18 filmes. Entre os destaques, um filme sobre country music, um sobre o Japão (segundo ele, hilário, ao abordar as idiossincrasias dos japoneses ), e um sobre as colônias de nudismo. Aliás, este último tema é recorrente em sua obra fotográfica, e responsável por muitos momentos divertidos. Deixou a televisão por incompatibilidade com as pessoas que trabalham no meio.
Da fotografia brasileira, ele diz ter conhecido e admirado poucos, caso do fotojornalista paulistano Flávio Canalonga (1953-2007), que conheceu, através de uma amigo em comum, em Nova York, e de Luiz Carlos Barreto, produtor de cinema, e que na época em que se encontraram, há décadas, era fotógrafo. É claro, os celebrados Miguel Rio Branco e Sebastião Salgado, devido a suas passagens pela Magnum, mas prefere não estender comentários sobre eles.
Sobre os caminhos da fotografia contemporânea e sua aproximação com a arte, Erwitt é contundente e curto: É claro que ampliações enormes, ou desfocadas chamam a atenção! Mas, para mim, a maioria é um truque! Um truque muito aborrecido, se não há conteúdo, se não há substância. O tamanho grande é mais fácil de impressionar as pessoas!” Quanto a isso não há dúvidas. Basta ver os altos preços que imagens como as produzidas pelo alemão Andreas Gusky alcançam nos leilões internacionais da Sotheby’s ou Christie’s.
Mas a crítica, muito apropriada do grande mestre, não se limita aos outros: Com auto-crítica, e com distinguível exercício de humildade, cada vez mais raro nos fotógrafos de hoje, ele diz : “Acho mais interessante quando as pessoas não gostam do meu trabalho! Isso faz a gente pensar mais”. Sobre o tal do “momento decisivo” estabelecido pelo mestre e amigo Henri Cartier-Bresson, Erwitt é mais modesto ainda: ” A maioria das vezes erramos nas decisões! Mas, raramente, quando acertamos, aí sim, é que aparece o momento decisivo!”
Originalmente publicado na revista Fotografe Melhor em 2005
Adaptado a “realidade” de 2009.
© Juan Esteves
Elio Romano Ervitz nasceu na França em 1928, filho de pais russos, que tiveram que deixar o país após as revoluções de 1917 que estabeleceram o poder bolchevista e o estado soviético. O nome ” Romano” foi adotado porquê seu pai estudou na Universidade de Roma. Elio, viveu seus primeiros dez anos na Itália, mas o fascismo o levou para Nova York, nos Estados Unidos, em 1939 e depois a família se instalou definitivamente em Los Angeles, na Califórnia, em 1941.
Graças aos trajetos familiares e, “Graças ao ditador Benito Mussolini”, como ele diz, se tornou o americano Elliott Erwitt, um dos mais importantes fotógrafos de todos os tempos, membro da mais celebrada agência de fotografias, a Magnum Photos. O pai, socialista convicto, sempre “culpou” a mãe por ter que deixar a terra prometida do paraíso soviético. Sem culpa, Erwitt mora em Nova York, e acha muito bom ser americano, embora diga que nos tempos do governo George W. Bush, não falaria isto. Sobre o governo Obama, provavelmente ainda é muito cedo para dar uma opinião.
Nestas mudanças, Erwitt aprendeu quatro idiomas, que segundo ele, foram muito importantes na sua carreira como fotógrafo. A vida de imigrante também serviu para facilitar suas andanças como fotógrafo pelo mundo, reunindo um portifólio inigualável, até hoje celebrado onde quer que ele vá. Inclusive no Brasil, onde esteve em 2005 para um workshop, e para inaugurar, com a mostra “Magic Hands “, a Leica Gallery, uma das sete espalhadas pelo mundo todo. Infelizmente, em 2007, a marca alemã preferiu encerrar suas atividades culturais no país, e após uma breve carreira com algumas boas exposições, o espaço deixou de existir.
Parte de um trabalho extenso e criterioso, as imagens expostas para o público paulistano eram flagrantes feitos em diversos países e também únicos momentos históricos. Com harmonia e composição raras, se tornaram ícones do vocabulário fotográfico de conteúdo. Aliados a uma excelente técnica, provam que todas as circunstâncias reunidas num só momento, não são fruto da sorte, e sim, resultado de um investimento no máximo apuro. Suas fotografias dão forma a plenitude de se estar no lugar certo, na hora certa, e com a lente certa.
O reconhecimento mundial de sua obra foi fácil de se constatar em uma palestra aberta no Curso de Bacharelado em Fotografia do Centro Universitário Senac, em São Paulo. Mais de 120 pessoas se reuniram, sentados em cadeiras, de pé, ou espalhados pelo chão, para ver suas imagens e ouvir suas histórias, o aplaudindo efusivamente.
Em 2005 fazia mais de quinze anos que não punha os pés no Brasil. Erwitt já esteve no país “pelo menos umas seis vezes”. Todas elas para produzir imagens para publicações internacionais. O fotógrafo também foi um dos primeiros fotógrafos internacionais a fotografar Brasília, com suas avenidas ainda de terra. A imagem está em alguns de seus livros, e na edição de 1963 da Photography Annual, em página dupla. Também fez fotografias memoráveis no Rio de Janeiro, e, após seu workshop – como todo fotógrafo estrangeiro – foi mais uma vez para Salvador, na Bahia, fotografar.
Com um bom humor reconhecido tanto em suas fotografias, quanto por suas atitudes, é pai de seis filhos e avô do mesmo número. Entre os filhos mais próximos da sua profissão, estão um fotógrafo em Los Angeles, e outro editor de fotografia assistente, na celebrada publicação americana Vanity Fair, revista para qual, ele mesmo as vezes trabalha. O fotógrafo também está no seu quarto casamento, desta vez, com uma escritora. Com o humor que lhe é peculiar, diz que “Nem todo mundo me acha engraçado! Pelo menos, nenhuma das minhas ex-esposas me acha engraçado “.
Erwitt é um daqueles raros profissionais consagrados onde quer que vá. Apesar de um alto profissionalismo, ainda mantém o frescor de quem empunha a câmera pela primeira vez. Não esconde suas opiniões, salvo raras exceções, quando fala sobre seus ex-colegas de agência Magnum, e é pródigo em transmitir sua experiência aos mais jovens. Tudo isso regado com uma larga dose de divertimento, estampado em suas imagens e no seu próprio comportamento.
Eclético, praticamente já fez exposições no mundo todo. Além do fotojornalismo, também trabalha com publicidade, e tem seu trabalho vendido por galerias de Paris, Nova York, Los Angeles, Tóquio, Berlim, entre outras cidades. Já publicou dezenas de livros – em inúmeras linguas – e de todas grandes editoras internacionais, só teve problemas com a inglesa Phaidon, que o processou por questões de copyright. Ele alerta os marinheiros de primeira viagem: “Olhem bem o contrato que assinam. Desconfiem dos contratos com muitas páginas!”
Entre seus livros mais importantes estão Personal Best (Tenue,2006), Eliott Erwitt Handbook (Quantuck Lane Press , 2002) que traz um ótimo texto do escritor Americano Charles Flowers, Eliott Erwitt- To the Dogs (Power House 1992) um registro muito bem humorado sobre os cães e seus donos, Eliott Erwitt –On the Beach (Norton, 1991) uma paixão eterna pelo mar, The Private Experience (Petersen 1974) onde ele relata sua experiência profissional, seus insights, e Eliott Erwitt –Personal Exposures (Norton & Company, 1988) uma compilação bem completa de sua obra. No total são dezessete publicações, algumas já esgotadas e outras já em diversas reedições.
Erwitt é um dos raros fotógrafos autorais que também atua em publicidade. Contudo, é necessário destacar que seu trabalho “publicitário” não é convencional. Muitos clientes são os governos de diversos países, para quem registra as cidades para divulgação do turismo, o que o aproxima do jornalismo novamente. Também, mesmo quando suas imagens são para campanhas como a do wisky escocês Chivas Reagal, para as luminárias da italiana Artemide, ou para os carros da japonesa Nissan, é quase como se estivéssemos vendo seus snapshots, e a predominância é o branco e preto, que emprega através de negativos pequenos, médios e até mesmo grandes. “Sem preconceito quanto aos formatos”, diz o fotógrafo.
Na publicidade, ainda há espaço para seus snapshots consagrados, como aqueles da série de cães – extremamente humorística – cujo terceiro livro, “Whoof” está para ser publicado . O caráter onomatopaico do título tem sua razão no comportamento singular do fotógrafo: Erwitt costuma latir para os cães que fotografa para provocá-los .”Cães são como pessoas, só que com mais pelos! Melhor, não são chatos como elas” .
Erwitt também trabalhou para empresas, como a americana Westinghouse. Contudo, o seu lado jornalístico não o abandona. Durante o trabalho para a empresa, que fabrica de reatores nucleares a geladeiras domésticas, fez uma imagem memorável do então canditado ao governo americano Richard Nixon (1913-1994) se encontrando com o premiê soviético Nikita Kruchev (1894–1971). Os dois parecem estar tratando de assuntos importantíssimos, até mesmo discutindo, mas o fotógrafo revela sem dramatizar e com muito humor: “Provalmente estavam falando qualquer banalidade no momento da foto”.
Depois de passar décadas produzindo para editoriais, ele afirma taxativamente: “O editorial ( fotos para revistas e jornais ) está acabando, praticamente não existe mais” se referindo ao decréscimo do número de imagens publicadas atualmente e a banalidade da maioria das publicações. São raras mesmo as publicações que seguem a tradição estabelecida por revistas como as americanas LIFE e Look Magazine. Estas, no auge chegavam a publicar ensaios fotográficos com mais de vinte imagens. O fotógrafo lembra a histórica briga entre o grande documentarista americano Eugene Smith (1918-1978 ) com a LIFE. “Ele queria publicar quarenta e tantas imagens numa materia e a revista apenas umas vinte”.
Sobre seu workshop no Brasil em 2005, comentou: “Não gosto muito de ensinar, não me sinto um professor, este é meu segundo workshop. O primeiro foi há 25 anos no Mois de la photo (Mês da Fotografia), em Arles, na França.” Mas, é muito improvável que isto seja uma verdade completa. Apenas a sua palestra no auditório do SENAC já foi uma verdadeira aula para quem soube ouvir nas entrelinhas de suas imagens, acompanhadas pelos seus divertidos comentários. Entre muitas gargalhadas, os ouvintes com certeza sairam de lá no mínimo com parte da história contemporânea da fotografia na cabeça.
Ainda rapaz, Erwitt deixou o sul da California, onde morava. “Lá não estava acontecendo nada para mim”. Ele queria ser como (Amedeo) Modigliani(1884-1920), o pintor italiano. Adorava suas pinturas, suas formas e principalmente o charme da boemia em que o artista vivia. Em parte, Erwitt deve sua carreira ao lendário Edward Steichen (1879-1973), fotógrafo e curador do Museum of Modern Art – MoMA por mais de uma década, responsável pela antológica mostra “The family of man” de 1955, com 503 fotografias, que além do museu, viajou por oito anos, exposta em trinta e sete países. “Graças a Steichen, consegui meu primeiro trabalho comercial” revela o fotógrafo .
Um dos momentos mais importantes na carreira de Erwitt aconteceu em 1951, quando foi recrutado pelo exército americano. Numa de suas folgas, em Nova York, ele encontrou o fotógrafo Robert Capa (1913-1954). O fotógrafo conta: “Capa estava começando uma pequena agência, a Magnum” – em forma de cooperativa, a Magnum Photos foi criada em 1947 por Capa, Henri Cartier-Bresson (1908-2004), George Rodger (1908-1995) e David “Chim” Seymour (1911-1956) – “ Capa disse para eu procurá-lo em Paris, qualquer hora”. Foi o que ele fez, na primeira oportunidade. Em 1953, deu baixa do exército, tirou o uniforme e assinou um contrato com a agência da qual é membro até hoje.” Eu era um freelancer por natureza. A idéia de trabalhar para uma empresa era horrenda”.
O sistema de cooperativa da Magnum era sua melhor afinidade. Uma das melhores definições sobre ela foi dada por Cartier-Bresson: “Magnum é uma comunidade de pensamentos, a qualidade humana compartilhada, a curiosidade pelo que está acontecendo no mundo, o respeito por estes acontecimentos e o desejo de transcrevê-lo visualmente”. Muitos dos grandes nomes da fotografia, como o suíço René Burri, que também esteve no Brasil, estão de acordo, embora, tanto ele, quanto Erwitt, achem que para alguns fotógrafos, o dinheiro fala mais alto, e não se adaptam ao sistema, ou melhor à “irmandade”, como às vezes preferem chamar a agência. Ele faz uma distinção entre a obra e a personalidade deles, mas prefere não nomear e criticar ninguém.
Elliott Erwitt viaja muito e fotografa de tudo. Em 2005 fez uma série de fotografias sobre pinguins, na Argentina, pouco antes de vir ao Brasil. Ele faz muitos portraits para revistas, e por muito tempo filmou para televisão. Ao todo, fez 18 filmes. Entre os destaques, um filme sobre country music, um sobre o Japão (segundo ele, hilário, ao abordar as idiossincrasias dos japoneses ), e um sobre as colônias de nudismo. Aliás, este último tema é recorrente em sua obra fotográfica, e responsável por muitos momentos divertidos. Deixou a televisão por incompatibilidade com as pessoas que trabalham no meio.
Da fotografia brasileira, ele diz ter conhecido e admirado poucos, caso do fotojornalista paulistano Flávio Canalonga (1953-2007), que conheceu, através de uma amigo em comum, em Nova York, e de Luiz Carlos Barreto, produtor de cinema, e que na época em que se encontraram, há décadas, era fotógrafo. É claro, os celebrados Miguel Rio Branco e Sebastião Salgado, devido a suas passagens pela Magnum, mas prefere não estender comentários sobre eles.
Sobre os caminhos da fotografia contemporânea e sua aproximação com a arte, Erwitt é contundente e curto: É claro que ampliações enormes, ou desfocadas chamam a atenção! Mas, para mim, a maioria é um truque! Um truque muito aborrecido, se não há conteúdo, se não há substância. O tamanho grande é mais fácil de impressionar as pessoas!” Quanto a isso não há dúvidas. Basta ver os altos preços que imagens como as produzidas pelo alemão Andreas Gusky alcançam nos leilões internacionais da Sotheby’s ou Christie’s.
Mas a crítica, muito apropriada do grande mestre, não se limita aos outros: Com auto-crítica, e com distinguível exercício de humildade, cada vez mais raro nos fotógrafos de hoje, ele diz : “Acho mais interessante quando as pessoas não gostam do meu trabalho! Isso faz a gente pensar mais”. Sobre o tal do “momento decisivo” estabelecido pelo mestre e amigo Henri Cartier-Bresson, Erwitt é mais modesto ainda: ” A maioria das vezes erramos nas decisões! Mas, raramente, quando acertamos, aí sim, é que aparece o momento decisivo!”
Originalmente publicado na revista Fotografe Melhor em 2005
Adaptado a “realidade” de 2009.
