Otto Stupakoff. Uma lenda
Apr 24th, 2009 | Por PicturaPixel | Seção: Blog
Por Juan Esteves

Baden-Baden é uma pequena cidade da Alemanha, famosa pelos seus spas. Alguns datados do Império Romano. Também era onde o compositor Johannes Brahms(1833-1897) costumava passar o verão. Foi lá que o brasileiro Otto Stupakoff fez uma de suas antológicas imagens. Duas mulheres nuas numa piscina, fotografadas para a revista Vogue, isso lá pela década de 60.
Assim como esta imagem ficou para sempre na cabeça dos fotógrafos brasileiros que começaram nos anos 70, outras suas também ficaram como exemplo de bom gosto, composição apurada e sofisticação, marcas que se tornariam registradas, deste excepcional fotógrafo, referência para toda uma geração.
O sobrenome pomposo ele herdou do avô que veio de São Petesburgo, na Russia, para o Brasil no início do século vinte. Stupakoff nasceu em São Paulo em 1935, e com 17 anos foi estudar fotografia em Pasadena, nos Estados Unidos, no The Art Center College of Design. A grande lição daquela época, diz ele, foi a conexão que a escola fazia com outros tipos de arte.” Tínhamos professores pintores, onde aprendi tudo sobre luz, sombra e composição. A pintura para mim sempre foi a maior referência.”
Stupakoff realmente aprendeu tudo. De volta para o Brasil, foi para o Rio de Janeiro, onde morou numa bela cobertura do Leblon, e começou sua carreira como fotógrafo. No início foi difícil, pois muito jovem, ninguém acreditava que as imagens de seu portifólio fossem mesmo dele. “Achavam que eram de meus professores! ” conta rindo.
Quem logo reconheceu o talento do fotógrafo foi o francês Michel Burton, diretor de arte da agência de publicidade McCann Erickson, em São Paulo. Seu primeiro trabalho foi um calendário para a Esso. Eram fotos de um caminhão da empresa, fotografado com múltiplas exposições numa estrada do litoral paulista.
Mas não seria na publicidade e sim na moda, que o fotógrafo faria muito sucesso. É dele uma antológica capa da revista Claudia de 1963, com o retrato da belíssima atriz Karen Rodrigues . Stupakoff conta que foi o autor da primeira foto de moda genuinamente brasileira: A modelo era Duda Cavalcanti, uma top internacional da época, vestindo um modelo do estilista paraense Dener Pamplona de Abreu, o famoso “Dener ” (1937-1978) . Lembra até mesmo a locação: No terraço da casa do pintor carioca Heitor dos Prazeres (1988-1966) , no distante ano de 1955.
Dez anos depois, com fotos nas mais renomadas revistas e famoso, Stupakoff achou que não tinha mais desafios no Brasil, e com só mil dólares no bolso, rumou para os Estados Unidos deixando dinheiro, mulher e quatro filhos. A distância e a contrariedade da mulher em ir junto, colocou um fim no casamento. Ele se casaria novamente e teria mais dois filhos. Um deles o fotógrafo Victor “Bico” Stupakoff, que vive nos Estados Unidos, casado com a top modelo Lucy Cunningham. É o único da famíla que seguiu a profissão do pai.
Desnecessário dizer que o dinheiro durou pouco e ele chegou a passar fome, até ir dar aula de fotografia na Parson School Design, de Nova York, em 1967. Ficou ensinando por um ano. Ainda lembra o seu bordão para os alunos : “Não vejam livros de fotografia! Fotógrafo deve ler muito. Ir muito ao cinema, ver pinturas e escutar muita música. Tudo menos livros de foto”.
Também desta época de professor vem uma parábola recorrente: “Você deve escolher sempre o caminho mais difícil. Ao entrar numa floresta, escolha o rumo mais escuro! Sem indicação, aquele mais difícil! Se você for talentoso, encontrará uma pérola, no lugar do dragão!”. Ou, “fotografia de rua é muito difícil! Eu olho, vejo a cena e penso. Isso não pertence a mim, pertence ao (Henri) Cartier – Bresson (1908-2004)! Não é minha. É dele o estilo!
Tal pensamento sempre o levou a buscar sua própria linguagem, que se resume na simplicidade máxima, sem maneirismos. “Minhas fotografias sempre tiveram um jeito de feita-em-casa! Meio amadoras!” descreve. Como as vezes talento e sorte andam juntos, Stupakoff começou a trabalhar como fotógrafo. Foram quatro anos fazendo quatro capas de disco por mês, para a Columbia Records. Entregavam os discos para ele ouvir e ele decidia como ilustrar. Liberdade total, a qual ele se acostumaria depois, ao trabalhar para revistas importantes como a Vogue, Harper’s Bazaar ou Glamour.
Seu primeiro trabalho editorial no exterior foi para Bazaar, fazendo o retrato do ator Oskar Werner, o Jules, protagonista de “Jules et Jim”, filme de 1962 do francês François Truffaut (1932-1984) . “Usava uma câmera de grande formato 9X10 polegadas . Não por exigência dos editores, mas, por escolha!”
Nesta época conheceu a brasileira Beatriz Feitler (1938-1982), diretora de arte da Bazaar, onde ele produziu ensaios mensais por cinco anos. ” No início, “Bea” não queria me dar trabalho achando que pensariam que estava me favorecendo por ser brasileiro. “Ela foi a melhor diretora de arte com quem trabalhei!”, conta, com saudade da amiga. Feitler foi diretora de arte da Rolling Stone onde redesenhou a revista por três vezes. O antológico volume do décimo aniversário da revista , de 1977, foi preparado por ela, que trouxe um ensaio fenomenal da fotógrafa americana Annie Leibovitz. Seu último trabalho foi reformular a revista Vanity Fair, cujo primeiro volume saiu um ano após sua morte.
Stupakoff lembra como eram diferentes as revistas naquela época: O fotógrafo escolhia a moda! Aprovava todos os detalhes antes! Depois de feita, editava as fotos no contato, só assim é que chegava ao editor de arte. “Não havia aquela coisa de hoje, de editor de arte dar palpite enquanto o fotógrafo trabalha. “Um absurdo. O momento da foto é sagrado! Só modelo e fotógrafo podem compartilhar! Sem produtoras! Não havia esta intromissão!”
“Hoje, a tal produtora de moda, quer segurar no tripé, olhar na câmera! Ver o Polaroid! Parece a representante do editor de arte! Só depois que eu escolhia, o contato ia para a Arte, retornando para mim para eu dar a decisão final”. Outra coisa impensável hoje, conta o fotógrafo: ” Um contato nunca ia para a editora de moda! Era uma norma! A editora só via depois que a Arte já escolhia o que publicar! Na Bazaar, era proibido ela ver antes! ”
Stupakoff tinha um jeito especial de produzir suas imagens, que para muitos deve parecer um sonho: Primeiro: Escolhia a modelo para o editorial, depois, o que ela vestiria. Chegava mesmo a “vetar” alguns estilistas. O estilista italiano Pierre Cardin* (1922-1993) era um deles. “Detestava o Cardin! Jamais fazia fotos com as roupas dele! Adorava (Christian) Dior (1905-1957) !”. Segundo: Antes das fotos, conhecia bem a modelo. Almoçava com ela, passava o dia, levava a mesma para o estúdio vazio.” Para conhecer seus olhares, como ela se comportava, antes de começar a fotografar! ”
Em 1973 ele muda para Paris, onde ficaria baseado até 1978, também trabalhando para Bazaar e as Vogues da França, Itália, Alemanha e Inglaterra. “Quando cheguei, me estenderam um tapete vermelho!” Nesta ocasião, se tornou amigo dos fotógrafos Frank Horvat**, com quem trocava e-mails até semanas atrás, do americano Arthur Elgort e do francês Gui Bordin (1929-1991).
Os anos 70 eram uma outra realidade, muito distante da atual. “Os fotógrafos eram amigos! “. Ao ser perguntado porquê, responde: “Cada um tinha seu trabalho reconhecido e torcia pelo outro. Richard Avedon (1923-2004) tinha seu estilo, Helmut Newton (1920-2004) o seu, Irving Penn, também! Era gente de altíssmo nível. Às vezes recebia um telefonema do Newton elogiando um ensaio meu! Cada um tinha seu estilo muito pessoal. Não havia o clima de amadorismo que existe hoje. Com as pessoas trabalhando sobre referências das outras!”
Em 1980 Stupakoff retornou ao Brasil, mas por pouco tempo. Sua fama fez com que não fosse bem acolhido. Não conseguia trabalho nas revistas brasileiras, muito menos se entendia com os editores. . “Eu intimidava os jovens editores! Fui completamente desprezado!”. No mesmo ano retornou para Nova York, onde permaneceu até 1993 mudando-se depois para Miami . “1992 foi meu melhor ano por lá! Cheguei a ganhar 1 milhão de dólares!”
Problemas familiares – que já foram muito expostos – e que não preferia falar a respeito, fizeram com que gastasse tudo. Embora seus trabalhos sejam vendidos pela galeria Staley-Wise, uma das melhores de Nova York, ganhava muito pouco com isso. Outra coisa que também preferia não falar é sobre as atrizes que fotografou. “Sofia Loren, Sharon Tate! Só me perguntam sobre minha vida pessoal, sobre estas atrizes!” desabafou.
Por iniciativa do fotógrafo Fernando Laszlo, de quem se tornou amigo, – e para quem Stupakoff disse que deixaria como herança seus negativos – e do fotógrafo Bob Wolfenson, o talento dele voltou a ser reconhecido no Brasil. Na verdade, para a geração nova, está sendo ainda descoberto, infelizmente, resultado da pobre e lamentável memória cultural brasileira.
Stupakoff voltou para o Brasil em 2005 – onde pretende ficar – para a abertura de sua exposição “Moda Sem Fronteiras – Otto Stupakoff Fotografias 55-05″ que ocupou em junho desse ano, o espaço do São Paulo Fashion Week. Uma enorme exposição com grandes painéis pelos corredores do pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, onde é a sede do evento. Entre outras coisas, cuidou também da publicação de seu livro, “Rio Erótico” editado em 2006 pela editora americana Aperture . Um apanhado de décadas de imagens explorando o erotismo e a sensualidade carioca.
Sobre seu futuro como fotógrafo, ao completar 70 anos, em junho de 2005, dizia não saber. Só se interessa mesmo pelas pinturas e colagens que faz há décadas. “Esta exposição foi um presente! A maior homenagem ao meu trabalho até hoje! 40 metros com dezenas de fotografias!” Fala orgulhoso e emocionado. “Sem falsa modéstia, acho que mereço !”
E merecia mesmo! Stupakoff ainda continuava sendo o fotógrafo de moda brasileiro mais celebrado no exterior e também por aqui. “Otto é um maestro, maestro da fotografía, da elegância e do “savoir vivre” afirma outro grande fotógrafo do gênero, o catalão, radicado no Brasil, J.R.Duran. Para outro mestre da fotografia, o carioca Claudio Edinger, “Qualquer fotógrafo que sobreviva mais de quarenta anos na profissão, além de ter que ser um gênio, é um herói! “.
O paulista Cristiano Mascaro credita ao fotógrafo uma das razões de ter escolhido profissão: ” Otto, assim como outros fotógrafos talentosos, me indicaram um caminho e fizeram com que eu tivesse certeza de que valia a pena dedicar-me à nobre profissão”.
Se existe ainda alguém que não acredite em seu talento, basta ler o que o escritor baiano Jorge Amado escreveu em 1980: “No campo da arte fotográfica, Otto Stupakoff nos oferece o exemplo mais completo de uma criação brasileira. Criação, além de tudo, de extrema exigência”.
Stupakoff voltou a trabalhar com fotografias, deixando de lado um pouco a pintura, com ensaios feitos para Vogue e revista MIT, da Mitsubishi. Também mudou de idéia em deixar seus negativos para Fernando Lazlo e os vendeu para o Instituto Moreira Salles, que já em fevereiro de 2009 organizou uma bela mostra de seu trabalho na sede do Rio de Janeiro.
PS: Ao contrário do que muita gente pensa, Cardin não é francês. Nasceu próximo de Veneza, na Itália. Contudo, filho de pais franceses, mudou-se para Paris em 1945. Curiosamente, nos anos seguintes trabalhou junto com Dior.
PS1: O fotógrafo Frank Horvat é um dos maiores expoentes da fotografia de moda, de reportagem e do retrato, além de responsável por um série de entrevistas antológicas com grandes fotógrafos internacionais. Nasceu em 1922 em Abbazia, antiga região da Itália, hoje pertencente a Croacia.
Texto escrito em julho de 2005, atualizado para 2009
Baden-Baden é uma pequena cidade da Alemanha, famosa pelos seus spas. Alguns datados do Império Romano. Também era onde o compositor Johannes Brahms(1833-1897) costumava passar o verão. Foi lá que o brasileiro Otto Stupakoff fez uma de suas antológicas imagens. Duas mulheres nuas numa piscina, fotografadas para a revista Vogue, isso lá pela década de 60.
Assim como esta imagem ficou para sempre na cabeça dos fotógrafos brasileiros que começaram nos anos 70, outras suas também ficaram como exemplo de bom gosto, composição apurada e sofisticação, marcas que se tornariam registradas, deste excepcional fotógrafo, referência para toda uma geração.
O sobrenome pomposo ele herdou do avô que veio de São Petesburgo, na Russia, para o Brasil no início do século vinte. Stupakoff nasceu em São Paulo em 1935, e com 17 anos foi estudar fotografia em Pasadena, nos Estados Unidos, no The Art Center College of Design. A grande lição daquela época, diz ele, foi a conexão que a escola fazia com outros tipos de arte.” Tínhamos professores pintores, onde aprendi tudo sobre luz, sombra e composição. A pintura para mim sempre foi a maior referência.”
Stupakoff realmente aprendeu tudo. De volta para o Brasil, foi para o Rio de Janeiro, onde morou numa bela cobertura do Leblon, e começou sua carreira como fotógrafo. No início foi difícil, pois muito jovem, ninguém acreditava que as imagens de seu portifólio fossem mesmo dele. “Achavam que eram de meus professores! ” conta rindo.
Quem logo reconheceu o talento do fotógrafo foi o francês Michel Burton, diretor de arte da agência de publicidade McCann Erickson, em São Paulo. Seu primeiro trabalho foi um calendário para a Esso. Eram fotos de um caminhão da empresa, fotografado com múltiplas exposições numa estrada do litoral paulista.
Mas não seria na publicidade e sim na moda, que o fotógrafo faria muito sucesso. É dele uma antológica capa da revista Claudia de 1963, com o retrato da belíssima atriz Karen Rodrigues . Stupakoff conta que foi o autor da primeira foto de moda genuinamente brasileira: A modelo era Duda Cavalcanti, uma top internacional da época, vestindo um modelo do estilista paraense Dener Pamplona de Abreu, o famoso “Dener ” (1937-1978) . Lembra até mesmo a locação: No terraço da casa do pintor carioca Heitor dos Prazeres (1988-1966) , no distante ano de 1955.
Dez anos depois, com fotos nas mais renomadas revistas e famoso, Stupakoff achou que não tinha mais desafios no Brasil, e com só mil dólares no bolso, rumou para os Estados Unidos deixando dinheiro, mulher e quatro filhos. A distância e a contrariedade da mulher em ir junto, colocou um fim no casamento. Ele se casaria novamente e teria mais dois filhos. Um deles o fotógrafo Victor “Bico” Stupakoff, que vive nos Estados Unidos, casado com a top modelo Lucy Cunningham. É o único da famíla que seguiu a profissão do pai.
Desnecessário dizer que o dinheiro durou pouco e ele chegou a passar fome, até ir dar aula de fotografia na Parson School Design, de Nova York, em 1967. Ficou ensinando por um ano. Ainda lembra o seu bordão para os alunos : “Não vejam livros de fotografia! Fotógrafo deve ler muito. Ir muito ao cinema, ver pinturas e escutar muita música. Tudo menos livros de foto”.
Também desta época de professor vem uma parábola recorrente: “Você deve escolher sempre o caminho mais difícil. Ao entrar numa floresta, escolha o rumo mais escuro! Sem indicação, aquele mais difícil! Se você for talentoso, encontrará uma pérola, no lugar do dragão!”. Ou, “fotografia de rua é muito difícil! Eu olho, vejo a cena e penso. Isso não pertence a mim, pertence ao (Henri) Cartier – Bresson (1908-2004)! Não é minha. É dele o estilo!
Tal pensamento sempre o levou a buscar sua própria linguagem, que se resume na simplicidade máxima, sem maneirismos. “Minhas fotografias sempre tiveram um jeito de feita-em-casa! Meio amadoras!” descreve. Como as vezes talento e sorte andam juntos, Stupakoff começou a trabalhar como fotógrafo. Foram quatro anos fazendo quatro capas de disco por mês, para a Columbia Records. Entregavam os discos para ele ouvir e ele decidia como ilustrar. Liberdade total, a qual ele se acostumaria depois, ao trabalhar para revistas importantes como a Vogue, Harper’s Bazaar ou Glamour.
Seu primeiro trabalho editorial no exterior foi para Bazaar, fazendo o retrato do ator Oskar Werner, o Jules, protagonista de “Jules et Jim”, filme de 1962 do francês François Truffaut (1932-1984) . “Usava uma câmera de grande formato 9X10 polegadas . Não por exigência dos editores, mas, por escolha!”
Nesta época conheceu a brasileira Beatriz Feitler (1938-1982), diretora de arte da Bazaar, onde ele produziu ensaios mensais por cinco anos. ” No início, “Bea” não queria me dar trabalho achando que pensariam que estava me favorecendo por ser brasileiro. “Ela foi a melhor diretora de arte com quem trabalhei!”, conta, com saudade da amiga. Feitler foi diretora de arte da Rolling Stone onde redesenhou a revista por três vezes. O antológico volume do décimo aniversário da revista , de 1977, foi preparado por ela, que trouxe um ensaio fenomenal da fotógrafa americana Annie Leibovitz. Seu último trabalho foi reformular a revista Vanity Fair, cujo primeiro volume saiu um ano após sua morte.
Stupakoff lembra como eram diferentes as revistas naquela época: O fotógrafo escolhia a moda! Aprovava todos os detalhes antes! Depois de feita, editava as fotos no contato, só assim é que chegava ao editor de arte. “Não havia aquela coisa de hoje, de editor de arte dar palpite enquanto o fotógrafo trabalha. “Um absurdo. O momento da foto é sagrado! Só modelo e fotógrafo podem compartilhar! Sem produtoras! Não havia esta intromissão!”
“Hoje, a tal produtora de moda, quer segurar no tripé, olhar na câmera! Ver o Polaroid! Parece a representante do editor de arte! Só depois que eu escolhia, o contato ia para a Arte, retornando para mim para eu dar a decisão final”. Outra coisa impensável hoje, conta o fotógrafo: ” Um contato nunca ia para a editora de moda! Era uma norma! A editora só via depois que a Arte já escolhia o que publicar! Na Bazaar, era proibido ela ver antes! ”
Stupakoff tinha um jeito especial de produzir suas imagens, que para muitos deve parecer um sonho: Primeiro: Escolhia a modelo para o editorial, depois, o que ela vestiria. Chegava mesmo a “vetar” alguns estilistas. O estilista italiano Pierre Cardin* (1922-1993) era um deles. “Detestava o Cardin! Jamais fazia fotos com as roupas dele! Adorava (Christian) Dior (1905-1957) !”. Segundo: Antes das fotos, conhecia bem a modelo. Almoçava com ela, passava o dia, levava a mesma para o estúdio vazio.” Para conhecer seus olhares, como ela se comportava, antes de começar a fotografar! ”
Em 1973 ele muda para Paris, onde ficaria baseado até 1978, também trabalhando para Bazaar e as Vogues da França, Itália, Alemanha e Inglaterra. “Quando cheguei, me estenderam um tapete vermelho!” Nesta ocasião, se tornou amigo dos fotógrafos Frank Horvat**, com quem trocava e-mails até semanas atrás, do americano Arthur Elgort e do francês Gui Bordin (1929-1991).
Os anos 70 eram uma outra realidade, muito distante da atual. “Os fotógrafos eram amigos! “. Ao ser perguntado porquê, responde: “Cada um tinha seu trabalho reconhecido e torcia pelo outro. Richard Avedon (1923-2004) tinha seu estilo, Helmut Newton (1920-2004) o seu, Irving Penn, também! Era gente de altíssmo nível. Às vezes recebia um telefonema do Newton elogiando um ensaio meu! Cada um tinha seu estilo muito pessoal. Não havia o clima de amadorismo que existe hoje. Com as pessoas trabalhando sobre referências das outras!”
Em 1980 Stupakoff retornou ao Brasil, mas por pouco tempo. Sua fama fez com que não fosse bem acolhido. Não conseguia trabalho nas revistas brasileiras, muito menos se entendia com os editores. . “Eu intimidava os jovens editores! Fui completamente desprezado!”. No mesmo ano retornou para Nova York, onde permaneceu até 1993 mudando-se depois para Miami . “1992 foi meu melhor ano por lá! Cheguei a ganhar 1 milhão de dólares!”
Problemas familiares – que já foram muito expostos – e que não preferia falar a respeito, fizeram com que gastasse tudo. Embora seus trabalhos sejam vendidos pela galeria Staley-Wise, uma das melhores de Nova York, ganhava muito pouco com isso. Outra coisa que também preferia não falar é sobre as atrizes que fotografou. “Sofia Loren, Sharon Tate! Só me perguntam sobre minha vida pessoal, sobre estas atrizes!” desabafou.
Por iniciativa do fotógrafo Fernando Laszlo, de quem se tornou amigo, – e para quem Stupakoff disse que deixaria como herança seus negativos – e do fotógrafo Bob Wolfenson, o talento dele voltou a ser reconhecido no Brasil. Na verdade, para a geração nova, está sendo ainda descoberto, infelizmente, resultado da pobre e lamentável memória cultural brasileira.
Stupakoff voltou para o Brasil em 2005 – onde pretende ficar – para a abertura de sua exposição “Moda Sem Fronteiras – Otto Stupakoff Fotografias 55-05″ que ocupou em junho desse ano, o espaço do São Paulo Fashion Week. Uma enorme exposição com grandes painéis pelos corredores do pavilhão da Bienal, no Parque do Ibirapuera, onde é a sede do evento. Entre outras coisas, cuidou também da publicação de seu livro, “Rio Erótico” editado em 2006 pela editora americana Aperture . Um apanhado de décadas de imagens explorando o erotismo e a sensualidade carioca.
Sobre seu futuro como fotógrafo, ao completar 70 anos, em junho de 2005, dizia não saber. Só se interessa mesmo pelas pinturas e colagens que faz há décadas. “Esta exposição foi um presente! A maior homenagem ao meu trabalho até hoje! 40 metros com dezenas de fotografias!” Fala orgulhoso e emocionado. “Sem falsa modéstia, acho que mereço !”
E merecia mesmo! Stupakoff ainda continuava sendo o fotógrafo de moda brasileiro mais celebrado no exterior e também por aqui. “Otto é um maestro, maestro da fotografía, da elegância e do “savoir vivre” afirma outro grande fotógrafo do gênero, o catalão, radicado no Brasil, J.R.Duran. Para outro mestre da fotografia, o carioca Claudio Edinger, “Qualquer fotógrafo que sobreviva mais de quarenta anos na profissão, além de ter que ser um gênio, é um herói! “.
O paulista Cristiano Mascaro credita ao fotógrafo uma das razões de ter escolhido profissão: ” Otto, assim como outros fotógrafos talentosos, me indicaram um caminho e fizeram com que eu tivesse certeza de que valia a pena dedicar-me à nobre profissão”.
Se existe ainda alguém que não acredite em seu talento, basta ler o que o escritor baiano Jorge Amado escreveu em 1980: “No campo da arte fotográfica, Otto Stupakoff nos oferece o exemplo mais completo de uma criação brasileira. Criação, além de tudo, de extrema exigência”.
Stupakoff voltou a trabalhar com fotografias, deixando de lado um pouco a pintura, com ensaios feitos para Vogue e revista MIT, da Mitsubishi. Também mudou de idéia em deixar seus negativos para Fernando Lazlo e os vendeu para o Instituto Moreira Salles, que já em fevereiro de 2009 organizou uma bela mostra de seu trabalho na sede do Rio de Janeiro.
PS: Ao contrário do que muita gente pensa, Cardin não é francês. Nasceu próximo de Veneza, na Itália. Contudo, filho de pais franceses, mudou-se para Paris em 1945. Curiosamente, nos anos seguintes trabalhou junto com Dior.
PS1: O fotógrafo Frank Horvat é um dos maiores expoentes da fotografia de moda, de reportagem e do retrato, além de responsável por um série de entrevistas antológicas com grandes fotógrafos internacionais. Nasceu em 1922 em Abbazia, antiga região da Itália, hoje pertencente a Croacia.
Texto escrito em julho de 2005, atualizado para 2009

Adendo providencial !
Por tudo o que se pôde ler e ouvir a seu respeito, Otto Stupakoff foi um homem encantador e um ser humano de primeira — que lastimo não ter conhecido pessoalmente .
Reitero o que escrevi em meu blog, sobre o fotógrafo que registrou “gentes” tão diversas, com olhar entre reverente e carinhoso:
Que sua marca humanista na super-encenada fotografia de moda deixe discípulos.
Bom final de semana,
Juan, não conhecia esse seu belíssimo texto. Eis uma homenagem para os leitores da PicturaPixel. Navegador e Juan, parabéns por ter resgatado “Otto Stupakoff, uma lenda”
Mais uma vez me delicio com seus textos, uma homenagem mais do que justa o resgate de “Otto Stupakoff, uma lenda” . Abs
Amigas,
Salve Otto!
Salve Juan Esteves!
Salve a Fotografia!
[...] Esta semana faleceu o famoso fotógrafo Otto Stupakoff. O blog do Pictura Pixel deu a nota num post muito bonito: clique aqui. [...]
por um lado foi uma grande perda, mas por outro, com seu grande trabalho, o Otto vai viver pra sempre.
nossa luta é esta: precisamos criar condições pra que os nossos grandes talentos não sejam abandonados mas sim incentivados a criar cada vez mais. que país é este que ignora seus maiores talentos artísticos?
Caro Cláudio,
vc tem razão quando diz que o Otto vai viver para sempre. E tem razão quando diz que devemos criar condições para incentivar os talentos. Chato é ver que um talento como Otto precisou morrer para viver na rede.
O consolo é que os arquivos seguirão por aqui e os Googles da vida também.
Ab.
Mais uma vez…salve o Juan Esteves!
Oi, Juan
” Ele se casaria novamente e teria mais dois filhos. Um deles o fotógrafo Victor “Bico” Stupakoff, ”
Desculpe estar aqui, mas lendo sua matéria sobre o Otto, queria dizer que tem um detalhe errado, não sei se foi por erro de grafia, mas quando lemos entendemos que o Bico Stupakoff é filho do segundo casamento, o que não é verdade, pois o Bico é filho do seu primeiro casamento sendo o segundo filho.
Obrigada