Jun 05 2009

I love Lomo

Por Raul Krebs



aceitei o convite de escrever sobre a minha relação com essas cameras estranhas que eu tenho e vou divagar bastante então…
first of all: pra mim não são estranhas, são lindas (e de baixo custo). porque ter coisas estranhas a peso de ouro é fácil. mas pra boa parte das pessoas que curte fotografia ou fotografa com essas cameras estranhas também não são estranhas, são toscas. o resultado é que não pode ser somente tosco. até pode, desde que intencionalmente. na real não tem muito como escapar da “tosqueira” usando uma lomo. mas não pode ser só isso, meu, tosco pelo tosco.
ou pode?

i lomo tudo que eu vejo



a primeira lomo que tive era uma bem vagabundinha (redundância?) de 4 lentes – 2 em cima e 2 em baixo – formando um quadrado. uma das mais populares, todo mundo conhece. (conhece, cláudio? giba?) comprei em lisboa, no aeroporto, no momento do desembarque. pensei: deve ser legal e não tem no brasil, o raciocínio mais rasteiro dos viajantes com pouca grana e e avidos por novidades. aquela foi aposentada (não consigo encontrá-la) e agora ando sempre com uma outra lomo fish eye na bolsa. mas confesso que faz dias e dias que não uso. essa fish eye é linda: preta com uma faixa horizontal branca no meio. comprei em nyc usando o mesmo raciocínio: tenho a grana na mão e não consigo comprar no brasil por este preço. acho que foi algo em torno de 40 doletas. voltando no tempo, me parece que este pensamento vai um pouco de encontro com o conceito por trás da linguagem lomo e que, voltando um pouco mais, resgata os meus anos de punk de butique com cabelos espetados com sabão de glicerina no bomfim, que era o bairro dos punks e boêmios de porto alegre, pelo menos nos anos 80 e 90. ou seja: o velho e bom DO IT YOURSELF!



i lomo nothing ultimamente

mas eu acho que não é bem assim esse lance de fotografar de qualquer jeito com qualquer camera. tem é que saber o que está se fazendo e de acordo com o equipamento usado. na verdade parece mais fácil manter o entusiasmo quando pensamos e programamos menos. parece, mas não pode ser assim. entusiasmo eu tento ter quando fotografo com a lomo ou com a H2 hasselblad de 39Mp. e são estes momentos de entusiasmo que me dão a visão perfeita e sem filtros de que encontrei a profissão certa (e na hora certa) pra mim.
e isso, amigos, é uma benção divina.



mas ando preguiçoso. na verdade ando cheio de trabalho e nada preguiçoso. é que pra fotografar com uma lomo fish eye temos que prever um pouco o resultado final, imaginar a distorção toda em cima do que o nosso olho 50mm vê. senão não tem nenhum sentido ser fotógrafo. é minha obrigação “acertar” mais fotos do que um leigo qualquer. ou “errar” mais seria melhor neste caso?



não sei se dá pra entender o que eu tô falando, mas aí estão algumas fotos que fiz com a fish eye delícia.



gosto pra caramba de mostrar pra todo o mundo e mostro com certo orgulho juvenil. na verdade, deixei de ser um adolescente há bem pouco tempo pra virar um velho aborrecido (olha o drama de novo!). não, não, na verdade virei um adultescente, termo psi bastante utilizado hoje em dia. cultivo brinquedinhos fotográficos e me divirto com eles.
i love lomo.


Lomos © Raul Krebs

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Apr 24 2009

A arte de enganar os olhos de quem vê

ando escrevendo pouco, eu sei.
d. cláudio já deve estar querendo me despedir por justa causa.
mas tudo tem sua versão neste mundo. fatos quase não existem mais, foram substituidos por versões. e a minha versão (ou fato) pra escrever pouco é que andei trabalhando muito mesmo. dias e dias sem sair do estúdio.





na verdade dei uma escapulida pra sampa e prestigiei duas exposições que a minha querida tatiana fez parte – a bienal de design gráfico (com um trabalho em conjunto comigo – a foto da saia de colherinhas) e a mostra de design brasileiro hoje: fronteiras (no MAM e com curadoria de adélia borges). e uma passadinha no masp, que está com uma exposição de retratos ótima, que inclui van gogh, goya e várias outras telas bacanas, além de um texto muito bom sobre retrato, claro. e várias idas a restaurantes excelentes que abundam naquela cidade – como o bistrô da boa e o arturito.
o resto do tempo eu estava aqui, na “caixinha”, trabalhando em fotografias publicitárias de todos os tipos: dia das mães de shoppings e lojas, bandas montadas pra um anúncio da coca-cola, etc etc etc.



também trabalhei nas fotos pra exposição coletiva chamada “pequenos formatos”, na galeria mais legal de porto alegre, a subterranea e que abre dia 7 de maio.
nada de muito novo (falando em propaganda) mas trabalhos beeem legais de fazer fotograficamente
falando. e que só se tornam mais legais porque eu gosto do que faço, o que transforma todo o ponto de vista que se tem sobre o trabalho.
sem amor ao que se faz, nada dá certo. e tenho dito.


aliás, gosto de frases definitivas. pelo menos até o próximo texto, quando posso me contradizer barbaramente. como dizia paulo francis: “só os idiotas não mudam de opinião”. e vamos em frente porque paulo francis já morreu mas deixou uma banda no recife chamada “paulo francis vai pro céu”.
sem dúvida um bom nome de banda. ou disco. ou livro.
enfim…
como eu gosto de foto e video, acabei me divertindo mesmo trabalhando. sexta santa e sábado gravamos o novo clipe de uma das bandas que mais admiro hoje, a TOM BLOCH. admiro pela postura estética, tanto da música quanto da imagem, que venho ajudando a construir já faz um bom tempo.
sim, somos hereges, incréus ou o que mais quiserem nos acusar por trabalhar na sexta-feira santa.
e olha que quase rolou um churrasco no meio do dia!
a banda é formada por dois amigos meus de longa data, Pedro Veríssimo e Iuri Freiberger (que não por acaso produziu os dois últimos cds dos Irmãos Rocha!, a banda falecida na qual eu toquei bateria, fui o fotógrafo oficial e fiz a iluminação de diversos shows). são duas pessoas bacanas de trabalhar, apesar da pouca prática do pedro em relação à produção. mas isso nem importa, já que o clipe tinha a idéia de uma “ação entre amigos”. e assim foi. até porque produzir um clipe “valendo” é caro demais. e quando não se oferece grana, tem que ter aquele velho prazer de ter uma boa idéia nas mãos. ou na cabeça. ou seria uma camera na mão e a idéia na cabeça?



já a idéia imagética (ou estética) veio à reboque das fotos que fiz dos dois integrantes há dois anos atrás, quando a banda estava lançando o cd com a formação atual: um baterista e um vocalista. o restante dos músicos são convidados ocasionais a cada show (normalmente ótimos músicos). ou seja, o que era uma simples idéia de “engana-olhos” virou o mote para o clipe: trabalhar com espelhos e montar imagens esquisitas sem pós-produção. as fotos que fiz são cruas, nada de photoshop. o clipe também vai ser assim. ou já está sendo – edição e finalização, mesmo sem trucagens, demandam um pouco mais de tempo e estão na pauta do márcio tozon, editor da firma filmes, mais um parceiro na empreitada. em breve nos youtubes da vida…



a idéia de enganar os olhos de quem vê, por sinal, veio do pedro que, como todo o clã dos veríssimos, tem uma vasta cultura, não só no campo das palavras mas das imagens também. e evoca, em certos momentos e sem falsa modéstia, alguns dos artistas que eu admiro pra caramba, como duchamp e man ray.
as fotos de making of (também feitas por mim) mostram que produzimos um clipe com uma equipe muito, mas muito pequena. coordenação de bel merel, direção de fabrício faerman, produção de pedro veríssimo e joca alovisi, direção de fotografia de raul krebs, produção de set de eduardo borsatto e maquiagem de regina. essa foi toda a equipe que entrou no estúdio mutante, com exceção do bel, que estava produzindo um longa pra casa de cinema e não pode (nem quis) comparecer à gravação.



as fotos não puderam mostrar o efeito dos espelhos em sua totalidade, já que o ângulo era milimetricamente calculado e, portanto, a camera de vídeo foi mais importante naquele momento. mas dá pra ver nas fotos o que falei no texto, principalmente na foto oficial.


Fotos © Raul Krebs

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Mar 23 2009

Falando em Dubai (e outras coisas mais)

Por Raul Krebs

DUBAI virou uma palavra usadíssima perto de mim de um tempo pra cá. Onde eu olho, tem Dubai no meio. Começou mais forte no ano de 2007 quando o meu time, campeão de tudo – Sport Club Internacional, foi fazer a pré-temporada por lá e sagrou-se campeão da Copa Dubai em cima da Internazionale de Milano. Com direito a gol de bicicleta do nosso avante Nilmar. Todos os dias tinha alguma notícia de Dubai por aqui. Enfim, vamos em frente.
Aqui em Porto Alegre tem festa chamada Dubai, tem casa noturna chamada Dubai e tem até promoção de passagens aéreas e pacotes turísticos pra Dubai. A dona da principal galeria de arte daqui – Bolsa de Arte – participa de uma importante feira em Dubai todos os anos.
Ano passado andei tentando ser “vendido” por uma agente de fotografia de SP, mas ela me disse que andava ocupadíssima somente com trabalhos pra… Dubai. Agora vejo a nota do blog Picturístico com fotos do megaedifício. As fotos são impressionantes, ainda mais pra mim que sofro com vertigo nas alturas e nem morto faria um trabalho desses.
Logo depois de ler a nota, dei uma navegadinha básica pela web. Sempre faço isso aos domingos pela manhã (ultimamente um dos poucos espaços de tempo tranquilo que tenho e porque acordo cedo, mesmo não querendo acordar).
Pois bem, a minha última surpresa “dubaística” foi saber que a escola parisiense de fotografia que estudei abriu um “posto avançado” por lá, a Paris Photographic School – SPEOS. Aliás, vale a pena ver o trabalho dos alunos da Escola no site deles. De um tempo pra cá, a SPEOS conta com um time de professores bem melhor do que quando estive na cidade-luz estudando Portraits and Self-portraits. Em moda e propaganda, por exemplo, a supervisão agora é de Paolo Roversi e Peter Lindbergh, dois dos maiores fotógrafos da área no mundo.
Naquele verão calorento de Paris, em 2001, a escola era aconchegante, pequena, com colegas muito bacanase um supersecretário chamado Frederic, apelidado por mim de Frederic, le simpatic. Com algumas pessoas ainda mantenho contato, especialmente a fotógrafa, agora baseada em NYC, Amanda Bruns – cujo portfolio considero bacana, especialmente em moda e vale uma olhada (www.amandabruns.com). Amanda aparece numa das minhas pola-pins publicadas na nota passada (é o primeiro portrait da nota).
Tudo parece que gira, gira e, de um tempo pra cá, termina em Dubai.
Ela, andarilha que é, ainda não foi pra lá. Eu, andarilho que sou, também não.

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Mar 13 2009

“O equipamento de ponta é o seu olhar”

Por Raul Krebs



a primeira vez que ouvi falar de fotografia pinhole foi quando eu ainda era assistente de fotógrafo e laboratorista preto e branco (coisa que quase nem existe mais), em 1992. eu estava dentro do lab quando o leandro bazei, um estagiário muito bacana e inquieto (gosto de pessoas inquietas, sempre atrás de coisas diferentes), entrou e pediu ajuda pra cortar uns pedacinhos de filme tri x 35mm e colocar dentro de tubinhos pretos. disse que era só fazer um furo com uma agulha na tampa e fotografar. olhei meio desconfiado pensando: “estagiário não sacaneia, é sacaneado! para com isso, meu…” e não dei muita bola.

mas ele começou a organizar tesoura, tubinhos, filmes e eu vi que não era sacanagem nenhuma, ele queria experimentar e ver se dava certo. tinha lido num livro sobre aquilo (não existia internet, meus queridos – bibliotecas das universidades faziam o papel que o google faz hoje em dia). fiquei observando e vi que existia algum sentido naquilo que ele falava. mesmo ainda desconfiado que não fosse dar certo, acompanhei o processo todo.
leandro me explicou todas as etapas – a luz entraria pelo buraco e imprimiria o filme, colado bem no fundo do tubo com uma fita durex enrolada. “a lente é o buraquinho”, ele me disse. era só apontar pro objeto a ser fotografado e abrir a fita isolante que servia de diafragma. fomos adiante e colocamos 2 pedaços de filme dentro de 2 tubinhos (um pra cada) pra tentar fotografar o edificio em frente ao estudio. apoiamos as “cameras” num pequeno muro, fixando com fita crepe e deixamos uns 4, 5 segundos expondo o filme à luz. uma hora depois eu via a imagem do edificio naquele naco de pelicula já revelado e cheio de arranhões. olhando com a lupa eu via as janelas e alguns detalhes. coloquei no ampliador e fizemos uma copiazinha rapida. estava tudo ali! fiquei maravilhado, como podia ter acontecido aquilo? fotografar sem usar uma lente? que porra era “fotografia de buraco de agulha”?



no final de 92 o fotógrafo de quem eu era assistente se mudou pra são paulo e eu fiquei com o prédio pra tocar o meu estúdio, ajudado por um sócio. não era tempo de pensar em “brincadeiras fotográficas”. eu tinha que trabalhar pra pagar o aluguel, coisa difícil na época e pra quem estava começando. algum tempo depois chegou um assistente chamado tiago rivaldo, hoje radicado no rio. tiago era formado em publicidade mas depois de um tempo como assistente resolveu estudar artes plásticas e seguiu seu caminho fora do estúdio. ficamos bem amigos e depois de um tempo ele foi me visitar. levou um dos trabalhos que ele estava desenvolvendo no instituto de artes: fotografia pinhole que ele fazia com caixas de fitas de vídeo adaptadas para serem cameras pinhole.
pela qualidade do trabalho do tiago, logo percebi que existia um bom caminho a ser percorrido naquele tipo de fotografia. mas ainda assim não fiz nada a respeito a não ser olhar com curiosidade praquilo. algum tempo depois, junto com outros colegas do IA, tiago fundou um grupo chamado “clube da lata” (ou algo assim, minha memória pra nomes é sempre uma vaga lembrança) e começou a desenvolver um trabalho maravilhoso com cameras obscuras, inclusive um trabalho chamado “o lado de dentro de um outdoor”, usando um outdoor como camera obscura e fazendo os transeuntes olharem a cidade atraves de pequenos furos. mas o meu interesse e curiosidade em fotografia pinhole começou a tomar corpo, embora eu fosse preguiçoso demais pra construir uma camera pra mim. tiago não, sempre vinha com novidades. mostrava muitas fotos, algumas no cais do porto, alguns autorretratos, fotos em viagens com exposição de horas e horas…até que ele fez a maravilhosa série SUBINONIBUS – 6 fotografias em camera obscura dentro de onibus em porto alegre. aliava a fotografia pinhole com percurso e tempo – interessantíssimo! achei a série genial, de uma potencia pouco vista em arte. fiquei muito impressionado com o resultado.

o itau cultural viu o trabalho e o tiago precisava de 6 ampliações de 1m x 2,40m das fotos que ele havia feitodentro dos ônibus. aceitei tentarmos fazer no estudio numa madrugada qualquer (tinha que ser assim porqueo estúdio não era totalmente vedado à luz), um desafio e tanto!

reproduzimos as copias 18×24cm em negativo preto e branco, montamos o ampliador num cavalete, tanques com quimico feitos de lonas e começamos a função toda as 10 da noite de um sábado, terminando ao amanhecer do dia. colavamos o papel com crepe na parede, projetavamos a imagem e revelavamos no chão do estúdio. a lavagem das cópias era feita no pátio, com mangueira. lembro que durante a noite muitas pessoas passaram por lá pra ajudar no processo todo (ou levar uma cerveja gelada), entre elas o eduardo aigner, outro grande amigo e excelente printer em PB. uma dessas cópias me foi presenteada pelo tiago e pode ser vista na entrada do meu estúdio hoje.


Fotos © Raul Krebs

a partir deste dia, cada vez mais fui pesquisando pinhole mas nunca construí uma camera, apesar das críticas do tiago em relação a isso. preferi comprar a camera chamada “leonardo”, que me acompanha até hoje, na pinholeresource.com. com ela a tiracolo fotografo muita coisa, de retratos à arquitetura, viagens e qualquer outro tipo de coisa que eu julgar bacana.

a fotografia pinhole (leandro? tiago?) me abriu os olhos mesmo o furinho sendo tão pequeno. em publicidade vc precisa de equipamento de ponta sempre e isso cansa um pouco. em fotografia pinhole o equipamento de ponta é o seu olhar. dai pra lomografia, outro tipo rudimentar de fotografia foi um pulo.

tiago hoje trabalha mais com cinema no rio, mora em santa teresa e desenvolve seus projetos artísticos com a qualidade de sempre.
leandro foi morar em paris, trabalha como assistente de uma fotógrafa (que obviamente eu não lembro o nome) e conhece um restaurante vietnamita maravilhoso perto do studiô dele.

Enlace para o Tiago Rivaldo

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Feb 27 2009

Ultimamente tenho recebido uns convites diferentes, desafiadores.

Por Raul Krebs

No ano passado fui convidado a fotografar o calendário 2009 da Impresul, a maior gráfica daqui de Porto Alegre, lançado no último dia 21 de janeiro. Agora, e por causa deste lançamento, D. Cláudio de España me convida a contar “como é fotografar com pinhole, digital e médio e gde formato… como vc passa de um para outro e como vc vê que tudo é fotografia, não importa muito o formato.”.
Desafios, desafios… a mi me encanta!
Vou falar direto sobre o projeto fotográfico do calendário. Até porque o convite “picturístico” veio depois. Peço desculpas pela linguagem coloquial e cheia de gírias do meu texto, que é quase como eu falo (não consigo fazer diferente). E já aviso que falo palavrão e escrevo errado muitas vezes.
Tirem as crianças da frente do computador. Ou não.
O esquema deste calendário é o seguinte: eles convidam o fotógrafo, que escolhe o lugar, cidade ou região que quer fotografar. Daí pra diante é tudo o fotografo (neste caso, comigo mesmo). É claro que fiquei bastante feliz pelo convite, mas neguinho que trabalha em propaganda estranha essas liberdades demasiadas, sabe? Logo depois do sorriso inicial – aquele sorrisinho egocêntrico-honrado – comecei a perceber o que me esperava… Dificuldade número 1: escolher a cidade, já que Porto Alegre tinha sido escolhida em 2007. Dificuldade número 2 e maior do que a anterior: eu sou um fotógrafo urbanóide, publicitário (tomara que no bom sentido), que gosta de rock, história, barulho, cidades grandes pra passar férias, um pouco de sujeira e gente, carros, edifícios, texturas de paredes, asfalto, essas coisas. Fotografar o pampa e pequenas cidades, portanto, estavam deletados das minhas possibilidades. Dificuldade número 3: pouco tempo em função da correria normal do meu trabalho e de mais um monte de coisas que sempre invento de fazer de uma hora pra outra (e que frequentemente não termino).
Eu consigo ser bastante focado e prático quando preciso, mas não lembro bem de onde partiu a ideia de escolher a cidade de Pelotas, ao sul do estado. Acho que foi pela sua importância histórica, em tempos passados, e pela decadência ainda elegante dos prédios e casas antigos, em tempos atuais. História, passado, texturas… devo ter achado convidativo. Alguns podem achar constrangedor de confessar, mas a pesquisa que fiz, antes de ir pra Pelotas, foi pequena, quase risível. Conversas informais com amigos e conhecidos, muitas vezes por telefone ou num elevador de prédio comercial, foram a minha fonte maior. Vi poucas fotos e não aprofundei a pesquisa intencionalmente. (repetindo; intencionalmente). Decidi ir e ver o que se apresentaria na minha frente. Calculei também o risco de alguém me dizer, com o calendário na mão: “porque tu não fotografaste tal lugar?”.
Enfim… escolhas.
As fotos foram feitas em um único e exaustivo dia, que começou chovendo e terminou lindo. Cheguei em Pelotas as 7h30 da manhã e saí de lá as 8h da noite. Comigo, cerca de 130 fotografias digitais e 24 chapas 4×5, obtidas com uma camera pinhole que comprei na pinholeresource.com baseada em projeto de Leonardo da Vinci. Nem preciso dizer que é uma camera encantadora e que me acompanha em viagens desde 98.
Cheguei a clicar com a minha lomo fish-eye também, mas o filme ainda está dentro dela. Nem revelei porque as chapas foram corretamente expostas e reveladas, coisa dificil em se tratando de pinhole, sempre imprevisivel e incontrolavel. A intenção foi mostrar linguagens, cores, pontos de vista diferentes de uma mesma cena e pelo olhar de um mesmo fotógrafo. Apostei no ecletismo que é uma das minhas características, não só na fotografia. Penso que um fotógrafo tem o dever de experimentar sempre que possível e este trabalho me deu a chance de me apresentar de maneira diferente dos outros fotografos anteriores (este é o calendário número 11).

Enfim… envio 3 fotos pinhole…







3 fotos digitais (Nikon D3)…







…e uma foto da camera pinhole em ação pro Pictura…


Fotos © Raul Krebs

E agora? Pela encomenda, tenho que falar mais sobre fotografia. Que sinuca!
Mas o que posso falar de interessante sobre fotografia e sobre o meu transitar entre cameras, formatos e midias diferentes? Só sei que fui passando, ao logo de 20 anos, por muitos tipos de camera no trabalho diário – 35mm analogicas, digitais “saboneteiras” horriveis, digitais bacaninhas Nikon (D3, D300, D200, D70 – ou ao contrario), cameras de médio formato analógicas (Hassel, Pentax), cameras 4×5, lomografia, Hassel com back digital, iphone… Isso sem falar no tempo que dediquei pra aprender a revelar e copiar em preto e branco, fazendo rayografias toscas sem nem conhecer o trabalho de Man Ray, que virou um dos meus maiores referenciais mais tarde. Sem falar também que a minha primeira camera foi uma Olympus Trip doada pelo meu pai, que a achava semi-profissional.
Claudião… pra sair dessa sinuca de bico que vc me meteu, só posso dizer que mexeriquei em tudo isso, além de outras coisas mais, pela simples e poderosa CURIOSIDADE que formiga meu cérebro todos os dias, mais do que qualquer tipo de estupefaciente que eu já tenha provado nos meus quarenta anos.
(Nossa, que dramático este parágrafo…)
Na real o blablablá todo é só uma desculpa furada pra mostrar fotos e fotos.
Né não, D. Cláudio?
Vamos em frente.
Tudo é fotografia, não importa o formato. Ou, como disse Joaquim Paiva no FestFotoPOA do ano passado: “fotografia é o que o fotógrafo disser que é fotografia”.

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Jan 27 2009

De Porto Alegre

Raul Krebs é fotógrafo desde que viu a fotografia com olhos profissionais, no início da década de 90. Começou como assistente e depois de 4 anos montou seu estúdio para atender o mercado publicitário. Paralelo à propaganda, desenvolve seu trabalho autoral:  expôs em Porto Alegre e São Paulo a série de fotografias Foreplay em 2002, participou do festival Multiple X – Instituto Goethe com o trabalho Hello… my name is it! em 2004 (co-autoria de Marion Velasco, Trampo e Eduardo Aigner) e participou de várias mostras coletivas. Foi finalista do Prêmio Conrado Wessel de Fotografia Publicitária em 2005 e 2006 e em 2008 foi finalista do New York Photo Festival, sendo o único brasileiro no evento. É professor no curso Avançado em Fotografia Digital da ESPM-RS, que ajudou a organizar.
    Leitor aficcionado de blogs e livros, e de tudo o mais que cair em suas mãos, adora inscrever seus trabalhos em concursos mundo afora. Gosta muito de música, Beatles, futebol, viajar, New York e clima frio com céu azul.

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