Por Anamaria Rossi.
Dias atrás, arrumando armários, encontrei no fundo de uma dessas gavetas sem fundo uma caixinha de papelão de um palmo de largura por menos que isso de altura e profundidade. Cheirava levemente a mofo e estava coberta por uma película de poeira. A figura estampada na tampa me enganou: ao invés da Cyber-shot DSC-P100 anunciada, o interior da caixa guardava coisa bem mais antiga e empoeirada. Ao abrir a caixa, as três velhas câmeras ali recolhidas exalaram fragmentos de uma viagem no tempo que me levou aos mais remotos esconderijos da memória.
Alguns deles nem tão remotos, para falar a verdade. Afinal, não faz tanto tempo que essa Olympus Stylus Epic “all weather”, automática, flash embutido, que jaz agora em um baú de relíquias, reluzia linda e loura nas mãos da feliz proprietária, eu. Há nove anos, para ser exata. Foi a Zuca quem me indicou. Ela estava na redação quando liguei do aeroporto de Guarulhos pedindo um help. Comprei ali mesmo, no Duty Free. Desembarquei em Londres sem falar uma palavra de inglês, mas feliz da vida pilotando a Stylus com zoom 80 DLX e uma chavezinha mecânica do lado esquerdo que me permitia fazer fotos “panorâmicas” (simplesmente cortando o fotograma horizontalmente em cima e embaixo). Um luxo!
Com ela registrei minha primeira neve, o pôr-do-sol às quatro da tarde no píer antigo de Brighton, as luzes cambaleantes do pub de estréia em Portobello Road, o sol tímido nas águas cristalizadas do Hyde Park, artistas de rua no Covent Garden, punks e outros bichos em Camden Market, trilhos e trens sem fim, caras, surpresas, sonhos que se materializavam diante de meus olhos espantados. Está tudo gravado nos dez ou 12 rolos de 35mm que consumi em dois meses de exílio voluntário e ultra-econômico nas terras gélidas do Reino Unido.
Mas confesso que senti saudade da boa e velha Olympus Trip, para mim a maior das preciosidades depositadas na caixa-baú. Saudade e um certo sentimento de traição. Atraída pela sucessora dourada e automática, era a primeira vez que eu abandonava a fiel Trip desde que ela caíra em minhas mãos, aos 7 anos. Naquela época, mesmo sem me conceder direitos exclusivos, meu pai arriscou compartilhar comigo a “máquina” da família. Nem imaginava que ela jamais voltaria para suas mãos.
A Trip, além de história, tinha um charme irresistível, capa de couro preta e um disco que me permitia regular a distância até o objeto: um homenzinho, um metro a um metro e meio; dois homenzinhos, dois a três metros; três homenzinhos, três a cinco metros; na última marca, a montanha estilizada apontava para o longe, a estrada, o mundo. Era a minha marca do infinito.
A Trip foi minha companheira inseparável, mesmo nos momentos de maior penúria, quando uma viagem de férias valia no máximo dois rolos de 36 poses, com direito a revelar só no mês seguinte. Reinou absoluta por 25 anos, atravessou comigo a liberdade da infância, a perplexidade da adolescência e as turbulências de uma vida precocemente adulta.
Com ela, a onipresente Trip, arrisquei meus primeiros registros “jornalísticos”, aos 15 anos, tomada pelo orgulho infantil de quem acabou de decidir que vai ser repórter. Do telhado do antigo Grande Hotel, em cima do Pingüim, no centro de Ribeirão Preto, registrei a multidão que se aglomerava na praça em protesto de Primeiro de Maio. E com que orgulho mostrei as fotos aos meus companheiros de movimento estudantil!
Foi através do diminuto visor da Trip que enquadrei algumas de minhas maiores aventuras. Por aquele obturador passaram todas as viagens da família – pai, mãe e quatro crianças – na gloriosa Variant laranja, comendo poeira por meio Brasil.

Quinze anos depois, sua lente cansada me acompanhava nas expedições pelo cerrado com Felipe, três meses, preso às costas do pai. E nos seguiu ainda, mãe e filho, por uma boa década, comendo estrada, encontrando gente, fazendo festa.
Sem falar nas fotos que, na adolescência, precisávamos esconder do meu pai, não porque fossem obscenas, mas por revelarem nossa ousadia, minha e de minha irmã mais nova, felizes da vida pegando carona numa carroceria de caminhão, com um bando de malucos, um garrafão de vinho e um violão, rumo a uma cachoeira qualquer no Sul de Minas.
Era tão grande a parte da mesada que eu empenhava em rolos de 35mm que minha mãe, um dia, me inscreveu num curso gratuito de fotografia oferecido pela Foto Miyasaka, a loja que revelava nossos filmes desde o casamento dela. Lá fui eu tentar entender qual era a mágica. Fiquei tão deslumbrada que Dona Nô prometeu me dar de presente uma câmera “de verdade” se eu passasse no vestibular. Mas demorei muito, azar o meu: quando entrei na UnB, seis meses depois de não entrar na USP, a situação financeira da família estava periclitante demais para tamanho luxo. Botei a Trip na mala e vim para Brasília disposta a enquadrar o mundo com ou sem câmera.
Relíquia ou ironia do destino?
Mergulho um pouco mais no baú de memórias e chego ao fundo da caixa. Lá está o terceiro e último achado, uma inacreditável Agfa Isolette V, enferrujada, descascada e pesadíssima. Leio com dificuldade o Made in Germany. Tenho agora nas mãos uma caixa preta misteriosa cujo único acesso parece ser um pequeno botão no canto superior esquerdo. Aperto o botão e ela dispara em minha direção uma lente embaçada, presa ao corpo da câmera por uma sanfona de papel esgarçada. Ao redor da lente, um anel metálico cujas marcações numéricas não decifro.
Uma relíquia!, penso agora, e me vejo revivendo a cena do primeiro encontro, 20 anos atrás. Eu acabava de chegar ao alojamento estudantil da UnB, depois de seis meses num pensionato, e procurava lugar para ajeitar a tralha. Me avisaram logo que eu tinha direito a uma porta de armário, só uma, arara em cima, gavetas embaixo. Abri a porta e lá estava ela, como que por milagre, surgida sabe-se lá de onde, bem no meio da segunda gaveta, sozinha no vazio do armário, à minha espera. Ninguém ali jamais a tinha visto, não tinha dono nem passado, e a partir de agora seria minha. Só minha. E que ninguém se atrevesse.
Jamais entendi como funciona a geringonça. Ainda hoje não sei como dispará-la. Desconfio seriamente que estejam faltando várias peças. Usá-la? Nunca passou pela minha cabeça. Mas entendi o achado como um sinal, um aviso, no mínimo uma ironia do destino, e guardei cuidadosamente a Agfa no baú dos objetos que vão comigo para o sarcófago.
Enquanto isso, nas aulas de Fotografia com Luiza Venturelli e Luís Humberto, sem grana para a minha própria “máquina de verdade”, eu brincava com a Praktica manual de uso comum do Departamento de Jornalismo. E me esquecia do mundo revelando filmes P&B com Jeová Xangô no laboratório, gastando minha pequena cota de papel em um dos quatro ampliadores disponíveis.
Na UnB, minha relação até então estritamente emocional com a fotografia – herança de uma família que dá a ela lugar de honra na celebração cotidiana da vida – ganhou olhos inquisitivos e uma consciência minimamente “científica”. Luiza me apresentou a luz, a sombra e Cartier-Bresson. Luís Humberto me mandou para a rua e me ensinou a olhar e enxergar sem concessões o que estava ao meu redor. Vi amigos, como a querida Usha, parindo os
Ladrões de Alma, outros enveredando para o cinema, o vídeo. Entendi que a Fotografia era um caminho possível e bem mais amplo do que eu supunha.
Mas esse namoro durou pouco. A roda da vida girou, girou, e foi levando as coisas de volta a seus lugares. A Praktica foi para as mãos de outro estudante; minhas mãos pousaram em fraldas, Remingtons e Olivettis; a Agfa e a Trip foram para o fundo da caixa, onde alguns anos depois ganharam a companhia da reluzente Stylus.
Dois anos atrás resolvi que era tempo de retomar essa história, e me tornei a felicíssima proprietária de uma Nikon D-40X. U-AU! Estou in love com ela até agora. E, claro, como uma apaixonada, regredi aos 7 anos: não li o manual, não perguntei nada a ninguém, simplesmente saí por aí enquadrando, medindo, experimentando, disparando.
Lamento informar, mas para certas coisas sou uma completa indisciplinada. E neste caso faço questão de ser. Atrás da câmera, olhando e decifrando a vida através do visor, quero muito mais do que pude até aqui: quero a liberdade. Do olhar, do não-olhar, do criar, da beleza, do erro. Quero que o mundo e suas versões caibam no centímetro quadrado do visor, em fragmentos, reflexos, vultos, caras, esboços. Quero (re) aprender o mundo. Experimentá-lo de um jeito novo para mim. Testá-lo, testar-me. Sem saber onde vai dar.
E cadê a Cyber-shot que deveria estar dentro da caixa? Pois é, já ia me esquecendo de contar que fim levou minha primeira digital. Presente de um amigo três anos atrás, ela nem chegou a esquentar em minha mão. Está longe daqui e do baú das relíquias, a todo vapor, do outro lado do Atlântico. Felipe, meu filho nascido nos tempos da Praktica e do laboratório P&B, fez com ela o mesmo que fiz com a Trip da família 24 anos atrás: botou na mala e levou para Madri. Está lá, tentando enquadrar a vida, por enquanto sem uma boa câmera, mas de olhos bem abertos.

© Felipe Rossi
Em tempo: Acabo de localizar na pródiga rede o Manual da Agfa Isolette V. Alguém aí conhece um bom restaurador?