Dec 07 2009

As calças curtas do menino Gervásio Baptista

BUENA VISTA

É sempre bom estar com o Gervásio Baptista, ouvir suas histórias, recontar suas histórias e fotografá-lo sempre. Ontem à noite (dia 01/10) ficamos um tempão na sala de espera do presidente do STF Gilmar Mendes, aguardando a hora de fotografar seu encontro com o ministro da Fazenda Guido Mantega: eu, Gervásio e o Ueslei Marcelino. Ficamos rindo, conversando, fotografando um ao outro e nem vimos o tempo passar. Gervásio é o nosso Buena Vista Social Club da fotografia brasileira.
André Dusek


© Ueslei Marcelino

Calças Curtas

Por André Dusek

A mula estava linda, toda vestida e preparada com os arreios. No chão, não menos lindo, com colete de vaqueiro e chapéu de couro, o poderoso homem dos Diários Associados, Assis Chateaubriand. Quatro homens o levantaram e o colocaram em cima da mula. Atento, um menino de calças curtas com uma câmara Netel de chapa de vidro 9×12 disparou a foto. Alguém viu e contou para Chateaubriand que nervoso, gritou: – “Ei, menino, você ficou maluco? Eu venho à  Bahia receber a Comenda do Vaqueiro e você me fotografa nessa situação! Você é de onde?” Ofegante, o menino respondeu: – “Sou do jornal O Estado da Bahia, o doutor Odorico Tavares me mandou fazer a foto do doutor Assis recebendo a comenda”. Irani, assessor de Chatô partiu para cima: – “Meu filho venha cá, eu quero essa chapa!”. O menino se esquivou dizendo: -  “Essa chapa o senhor vai pegar com o Dr. Odorico Tavares”, e em seguida foi fotografar a entrega da comenda. Afinal ele ainda tinha 11 chapas para gastar e fazer o serviço. Durante a solenidade Chateubriand não tirava o olho do menino fotografando e comentou em voz alta: – “Olha o Menino, esse menino é gênio, olha como ele sabe fazer “bunitinho”, pega ele, pega ele…” E o menino correu, entrou no carro do jornal e saiu voando de Feira de Santana.


Já em Salvador, revelaram as chapas e constataram que as fotografias ficaram lindas. Assis Chateaubriand, também foi a Salvador para visitar o jornal O Estado da Bahia, que era dos Diários Associados. Assim que chegou foi logo perguntando: – “Cadê o menino, o fotógrafo de calças curtas? Odorico Tavares, o dono do jornal apresentou-o a Chateaubriand: – “Este é Gervásio Baptista, esse menino trabalha aqui há algum tempo, já faz um ano ou dois, mas ele tem tino. Aprendeu a revelar e a fotografar com o José Brito (principal fotógrafo do Jornal na época) e faz as fotos de esporte. A página de esporte de domingo geralmente quem faz é ele”. Assis Chateaubriand falou: – “Olha aqui meu filho, gostei de você, você vai embora para o Rio de Janeiro, eu vou levar você”. Chatô continuou dando ordens: – “ Providencia aí para levar esse menino para o Rio. Odorico, providencia aí para comprar umas calças compridas para esse rapazinho que ele merece”. No dia seguinte o Dr. Odorico mandou comprar roupas novas para ele. No primeiro dia que Gervásio usou as calças compridas levou uma queda, a boca da calça era maior o que o fez tropeçar e cair. E a foto de Assis Chateaubriand sendo carregado pelos quatro homens?  “Ficou ótima, mas a que publicou foi a dele recebendo a comenda e nunca mais se soube o  fim que deram à tal da chapa. Eu não imaginava que fosse virar história”, lamenta hoje Gervásio.

Esse episódio se passou na década de 40. Demorou alguns anos até que um dia, Dr Irani, secretário de Chatô, mandou uma passagem de avião para Gervásio ir para o Rio. Eles queriam o menino, agora com calças compridas, trabalhando na principal revista brasileira de reportagens da época, “O Cruzeiro”. Em 1953, Gervasio desembarcou no Rio e ficou num hotel na praça Mauá. “Eu fiquei num verdadeiro come-dorme, não fazia nada. Ia para a redação do Cruzeiro todos os dias. Eu conheci a turma, me jogaram num verdadeiro “Butantã” (cheio de cobras) – Jean Manzon, Ed Keffel, José Medeiros, Luiz Carlos Barreto (isso mesmo o cineasta) e Luciano Carneiro” conta Gervásio. Os “cobras” não deixavam nenhuma pauta para Gervásio fazer, mas lá ele aprendeu a trabalhar com a câmara Rolleiflex e muitas outras coisas de fotografia.  Gervásio ficou por ali, pelo Cruzeiro até que um dia foi almoçar com um colega seu, o jornalista capixaba Darwin Brandão na Bloch (já naquela época o almoço da Manchete era bom e de graça). Lá encontrou o jornalista Hélio Fernandes (hoje dono da Tribuna da Imprensa), secretário de redação da revista Manchete que ia ser lançada. Até então só existia a Bloch Gráfica, que era especialista em imprimir talões do jogo do bicho. Hélio Fernandes, perguntou se ele era fotógrafo e Gervásio respondeu que estava tentando ser. Hélio então disse: -“você vai fazer umas fotos para mim, estamos fazendo a revista Manchete. Quanto você ganha lá no Cruzeiro?” Gervásio respondeu – ”Estão me pagando 12 “mérreis” (mil reis)”. Hélio atirou – “então eu dou 15”. Gervásio perguntou – “e eu vou trabalhar?” (No Cruzeiro ele não fazia nada). Hélio disse – “Vai”, Gervásio não teve dúvidas – “então é comigo mesmo”. Largou o Cruzeiro e foi fazer parte do grupo que fundou a  revista Manchete. Nicolau Drei era o chefe da fotografia e os outros fotógrafos eram Illen Kerr, Orlando Machado e Gervásio Baptista.  Para fazer sua primeira pauta na Manchete, Hélio Fernandes perguntou-lhe – “você veio de onde?” E Gervásio respondeu – “eu vim do Brasil, onde nasceu o Brasil, da Bahia.” O Hélio continuou – “você seria capaz de ir lá fazer uma reportagem?”. Gervásio ficou feliz, visitou sua casa, sua família com uma passagem de ida e volta para Salvador e com hospedagem e fez uma bela matéria de uma “puxada de rede” dos pescadores.

Quando o presidente Getúlio Vargas se matou em 1954, Gervásio Baptista foi enviado pela Manchete para cobrir o funeral em São Borja (RS). Naquela época não era muito simples viajar. Ele foi de avião de carreira até Porto Alegre e de ônibus para São Borja. Era mês de agosto, um frio de lascar. Na confusão do enterro, Gervásio teve a oportunidade de conhecer o então ministro do trabalho, Tancredo Neves. Gervásio estava em cima de um túmulo, agarrado num anjo, quando Osvaldo Aranha começou a falar, inflamado. Ele fotografava agarrado no anjo , quando de repente Tancredo puxando seu dedão e disse – “O rapaz, você cai daí tome cuidado”. Gervásio respondeu – “qualquer coisa o senhor me ampara, ministro” (mais tarde, Tancredo já presidente eleito, em 1985, se lembrou dessa história numa entrevista coletiva).  De repente, num momento emocionado do discurso de Osvaldo Aranha, Tancredo botou a mão no rosto e começou a chorar. Gervásio fez essa foto do enterro de Getúlio que ficou famosa – Osvaldo Aranha discursando inflamado e Tancredo com a mão no rosto. Quando terminou o sepultamento, Gervásio tinha que voltar para Porto Alegre para pegar o avião rumo ao Rio de Janeiro e isso levaria três dias. Ele resolveu ir para o aeroporto de São Borja. Chegando lá viu o C46 da Presidência, o avião que trouxe o corpo de Getúlio. Gervásio pensou – “ vou entrar nesse avião aí e me esconder”. Foi chegando perto do cabo de polícia na porta do avião e disse “- ô cabo tudo bem aí? Está um frio lascado” E o cabo perguntou:- “Usted vai viajar? “ Gervásio disse: “Sim, eu sou da comitiva. Se eu pudesse entrar nesse avião aí, olha como é que eu estou, morrendo de frio”. O cabo respondeu: – “Olha não chegou ninguém não, mas você pode entrar”. Gervásio entrou e ficou dentro do banheiro trancado. Horas depois começou a chegar a comitiva e logo ouviu-se ronco do motor. O avião decolou com destino ao Rio de Janeiro. Gervásio sentado dentro do banheiro morrendo de frio. Depois de uns 40 minutos de vôo, alguém foi ao banheiro, botou a mão na maçaneta, forçou a porta e viu que estava trancada. Ele começou a pensar em como sair dali, daquela situação sem que notassem que ele era clandestino. Entreabrindo a porta, viu todos os passageiros sentados de costas, mas percebeu que um soldado, destes que servem café a bordo, se aproximava e, num ímpeto, fechou a porta do banheiro de novo, sem trancar. De repente, alguém abriu a porta e viu Gervásio sentado com a cara mais sem graça do mundo. Era o general Caiado de Castro, ministro chefe da casa militar que disse : – ” O que você está fazendo aí, sai daí, é o fotógrafo…rapaz você está querendo causar um desastre no avião. É peso demais” E Gervásio tenta justificar – “Eu sou o lastro, o avião não tem carga”. O general retrucou – “você está preso”! Gervásio concordou – “sim senhor”. O general deu-lhe voz de prisão e mandou que se sentasse no último banco do avião. Caiado de Castro ficou se gabando como sendo o herói que prendeu o fotógrafo clandestino. As pessoas ficaram sentadas e tudo se acalmou. Após algum tempo, um sujeito se levantou e se sentou ao lado de Gervásio: era Samuel Weiner, o dono do jornal Última Hora. Olhou para ele e disse assim: – “Me dá os filmes que eu alivio…” e repetiu – “me dá seus filmes que eu livro sua barra”. Gervásio se recusou – “essa nunca, não vou não, eu vou preso…” Weiner disse:- “você vai preso, mas quando você chegar a gente toma os filmes”. E Gervásio  disse: – “tudo bem, mas eu vou chegar no Rio hoje”. Weiner voltou para sua poltrona. Lá pelas três, quatro horas da tarde o avião pousou no aeroporto Santos Dumont e foi taxiando na pista. O soldado abriu a porta para ventilar ainda com o avião em movimento. Gervásio viu o avião taxiando de vagar, com a porta aberta e aí pensou – “tô fora, é agora ou nunca”. Pegou a Rolleiflex e jogou dentro da bolsa. Olhou para o  flash Mecablitz , desses enormes e resolveu abandoná-lo no avião. Se agarrou na bolsa e  “pimba”: deu um pulo, caiu na grama e saiu rolando. Levantou-se, saiu correndo ainda agarrado à bolsa e as pessoas ficaram gritando do avião “pega! pega!”. Quanto mais eles gritavam “pega”, mais ele corria. Atravessou o prédio do aeroporto Santos Dumont, entrou num taxi e foi para a sede da Manchete na rua Frei Caneca. Chegou na redação esbaforido e foi para o laboratório. Todos perguntaram – “já voltou Gervásio, você não viajou não?”. Ele não podia nem falar, pois o coração saía-lhe pela boca. Nisso encontrou Adolpho Bloch (dono da Manchete) no corredor dizendo – “Eu não mandei você cobrir o enterro do Getúlio, pôrra”! Ao que ele respondeu – “já voltei, já fiz o enterro, entrei no avião da comitiva escondido, vim como clandestino, o general Caiado de Castro me prendeu, eu pulei do avião, caí na grama, fugi e estou aqui – o senhor quebra meu galho?” Aí Adolpho disse – “Cadê os filmes”? “Estão aqui”, falou Gervásio entregando cinco rolos de filme. Adolpho Bloch disparou – “Pára tudo, edição especial amanhã”. Fizeram uma edição especial da Manchete do sepultamento de Getúlio, antes das revistas concorrentes e até dos jornais.

Artigo originalmente publicado no site Foto Coleguinhas

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Feb 27 2009

Congelados no tempo.

Por André Dusek

Depois de quebrar com golpes de machado a camada de mais de um metro de gelo, o fotógrafo australiano Frank Hurley tirou sua camisa e mergulhou nas águas geladas no interior do navio Endurance semi afundado entre blocos de gelo no mar de Weddell próximo ao continente Antártico. Num ato heróico conseguiu salvar as latas lacradas contendo seus negativos, parte do trabalho de documentação fotográfica da lendária expedição do comandante irlandês Sir Ernest Shackleton. Era novembro de 1915 e o início de uma longa viagem de volta de 28 homens no meio de um mar em degelo e que a partir daquele momento não poderiam mais contar com o navio. Diversos livros descreveram essa aventura do navio Endurance e do comandante Shackleton que durou de 1914 a 1916, mas a narração mais completa está no livro de Caroline Alexander, “Endurance, a lendária expedição de Shackleton à Antártida”, publicado no Brasil em 2001 pela Companhia das Letras, que além de reunir depoimentos retirados dos diários de quase todos os membros da expedição mostra as impressionantes fotos de Frank Hurley.
Destaco aqui o trabalho de Hurley, o fotógrafo da expedição, que na época – 1914 – trabalhava com câmeras Graflex e uma câmera de fole bem pesada que usavam chapas de vidro e também com câmeras VPK – Vest Pocket Kodak – Kodak de Bolso, que usavam filmes de rolo. Seus negativos eram revelados no navio em condições muito distantes das ideais. Com a temperatura as vezes de 25°C abaixo de zero, o laboratório era mantido fora da temperatura de congelamento através de um fogareiro e a lavagem das chapas era feita com água obtida de gelo derretido. As fotos de Hurley revelam uma completa documentação fotográfica mostrando desde retratos de todos os integrantes da expedição, incluindo os 28 homens, os cães e o gato de estimação até as diversas atividades de rotina como a navegação, limpeza, cozinha e lazer. Podemos ver imagens dos homens esfolando pinguins para se alimentar e até se divertindo jogando futebol sobre o mar congelado. Mostram também, com muita qualidade devido às chapas de grande formato, o drama do navio Endurance, preso ao gelo e a luta em vão de seus tripulantes para livrá-lo da “morte”. Uma foto impressionante mostra uma fileira de cães observando os mastros do navio engolido pelo gelo.



Além do esforço de salvar suas latas de negativos de dentro das águas geladas do navio afundado, Hurley ainda passaria por momentos de cruel decisão. Como teriam que “caminhar” sobre o mar congelado, sem navio, arrastando três barcos salva-vidas para encontrar mar aberto e tentar navegar para algum lugar numa desesperada luta pela sobrevivência, o peso dos artigos pessoais que cada um podia levar era extremamente limitado, teriam que levar apenas o essencial, deixando as coisas “inúteis” para trás. Como os negativos eram pesadas chapas de vidro, Hurley e o comandante Sir Ernest passaram todo o dia 9 de novembro de 1915 selecionando as imagens que valiam a pena ser levadas. E assim 120 negativos foram soldados dentro de latas bem fechadas e os restantes 400 foram jogados fora, no gelo. Hurley guardou ainda um album de fotos de cópias já reveladas dentro de uma caixa de latão. As fotos selecionadas e os diários de todos seriam preservados pois Shackleton se preocupava com o livro “South” que ele escreveria mais tarde e cujos direitos autorais ele havia vendido antecipadamente para financiar a expedição. Seu equipamento pesado também teve que ser “sacrificado” e a partir desta data, na aventura de volta, Hurley só contou com uma câmera Kodak de bolso e tres rolos de filme.
A expedição imperial transantártica de Shackleton, que começou em meados de 1914, teve que mudar seu objetivo. Inicialmente ela deveria ir com o navio Endurance até algum ponto da costa do continente Antártico pelo Mar de Weddell. De lá, uma equipe iria de trenó com cães até o polo sul e depois seguiria para o outro lado do continente na costa do Mar de Ross. O Endurance ficou preso no mar congelado em janeiro de 1915 e só em novembro do mesmo ano acabou afundando, quebrado pela pressão do gelo. Sem navio, 28 homens empurraram três barcos salva-vidas e depois esperaram até abril de 1916 quando o gelo se despedaçou e eles puderam lançar ao mar os barcos seguindo até a ilha Elephant. De lá, seis homens, incluindo Shackleton, foram no salva-vidas maior, o James Caird, navegando durante dezesseis dias até a ilha Georgia do Sul para buscar ajuda para resgatar os outros 22 homens que ficaram na ilha Elephant. O fotógrafo ficou na equipe que aguardou por mais cinco meses na ilha. Durante esse período, Hurley registrou a vida do grupo na ilha Elephant com sua Kodak de bolso até quando finalmente em 30 de agosto de 1916 o grupo foi resgatado pelo navio chileno Yelcho trazido por Shackleton. Desde o começo até o fim da expedição se passaram quase dois anos e todos os 28 homens se salvaram.
Esta história seria apenas mais uma aventura interessante da era heróica dos grandes exploradores se fosse apenas contada em texto nos livros. Entretanto, as imagens reais das fotos que Hurley fez e conseguiu salvar ainda nos emocionam mais de 90 anos depois, comprovando que a história foi verdadeira. A palavra Endurance, em inglês significa resistência, capacidade de suportar e, embora o valente navio não tenha suportado à pressão do gelo, as imagens dele e da aventura da expedição de Shackleton resistiram para sempre nas fotos de Frank Hurley.













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Jan 29 2009

De Brasília

André Dusek, nasceu no Rio de Janeiro em 1956 e mora em Brasília desde 1975. Começou a fotografar profissionalmente em 1978. Trabalhou nas Revistas Manchete e Fatos&Fotos de 1978 a 1980. Foi fotógrafo do jornal Correio Braziliense de 1980 a 82. Foi presidente da União dos Fotógrafos de Brasília em 1983/84. Foi membro da agência AGIL Fotojornalismo de 1982 a 89. Trabalhou na Agência Estado e jornal O Estado de São Paulo de 1988 a 94. De 1994 até 2006 foi repórter fotográfico da revista Istoé, sucursal Brasília. Em 2006 voltou a integrar a equipe de fotógrafos do Jornal Estado de São Paulo / Agência Estado em Brasília.

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