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* Fones de ouvido são recomendados para melhor apreciar os slideshows


Quatro perguntas para André Cypriano

André Cypriano, 42 anos é um paulistano que tem sua vida ligada ao mar. Ele surfou pelos mares do mundo e acabou parando em São Francisco, EUA, em 1990. Na Califórnia, André estudou fotografia e deu início `a sua premiada carreira fotográfica internacional. Em 16 anos de fotografia, Cypriano tem mais de 20 portfólios concluídos. PicturaPixel apresenta com prazer dois slideshows de André Cypriano. O primeiro é uma retrospectiva desses 16 anos, o segundo é uma comparação entre as favelas do Rio de Janeiro e os "barrios" de Caracas. O próprio André comenta o seu trabalho.

1- No projeto Caldeirão do Diabo e depois no trabalho das favelas, você conviveu com o Comando Vermelho, como foi essa experiência ?

Entre os moradores das comunidades onde o CV domina, principalmente nas penitenciárias e favelas, existe um respeito e uma adoração muito grande pela organização.Um verdadeiro fanatismo com a cor vermelha, a sigla, a ideologia, os códigos e principalmente a adoração pelos líderes.

O CV para muitos moradores de favelas traz segurança e emprego, exatamente o que o governo está deixando de lhes proporcionar. Seguindo uma ideologia política da organizacão, ainda da época da ditadura, muitos se sentem vítimas de uma sociedade racista e discriminatória e com poucas chances de êxito nessa sociedade.

Depois do Caldeirão e da Rocinha, fotografei outras 10 favelas no Rio, todas sob o dominío do CV. Hoje não me arriscaria ir a uma favela de outra facção. O Comando Vermelho faz parte da história do Brasil, assim como os cangaceiros. Da mesma maneira como não se pode separar a Máfia italiana de Chicago, da história dos EUA.

2- Quais os pontos em comum e as diferenças entre as favelas brasileiras e venezuelanas ?

As favelas da Venezuela são mais jovens, surgiram há 40 anos. As do Brasil existem há mais de 100 anos. Em Caracas as favelas ainda continuam crescendo horizontalmente, enquanto as do Rio crescem verticalmente. Cada favela do Rio é dominada por uma organização criminosa, com um líder. Na Venezuela são pequenas gangs disputando o poder.

Em Caracas é frequente o roubo dentro das favelas. No Rio os traficantes nao permitem roubo, a "lei" é dura, pena de morte. O crack é comum em Caracas, no Rio de Janeiro, os traficantes não admitem a droga, que não proporciona bons lucros e só traz complicações.

Na arquitetura das habitações é comum nos dois países o piso superior ser maior do que o piso inferior, lembrando a estrutura de uma luneta. Tambem é comum a solidariedade, o machismo, e muitos dos códigos sociais internos entre os moradores. O lixo exposto, a falta de saneamento básico, a ausência do governo também são características comuns.

É também comum entre os dois países o não reconhecimento das comunidades faveladas nos mapas e livros da cidade.

3-Você vive entre Nova York, a capital do mundo e a Ilha Grande, um paraíso terrestre, o que a fotografia tem a ver com esses dois lugares ?

A fotografia de certa forma une os dois lugares, me faz enxergar o que eles oferecerem e afia minha percepção. O contraste entre esses lugares é enorme, talvez por isso goste tanto de viver nessas duas selvas.

Nova York tem as galerias, os museus, as editoras de livros, as revistas, as agências, as melhores lojas de material fotográfico e ótimos laboratórios. Muita informação de primeira mão. Levo tudo isso para digerir na Ilha Grande e de uma forma saudável. Literalmente saudável, ou seja, depois de um mergulho e um peixe fresco. Muitos dos meus projetos foram feitos em lugares onde originalmente fui em busca de ondas virgens para surfar, como o portfólio de Nias em Sumatra, e o O Caldeirão do Diabo, na Ilha Grande. Me identifico com a natureza.

Enquanto em NovaYork trabalho na maioria das vêzes fotografando sobre pressão, na ilha desenvolvo um projeto de um livro, no estado máximo de relaxamento. São fotos de pessoas boiando ou namorando na água, as vêzes, dormindo na areia.

Acho que em lugares, como Nova York, as pessoas precisam se dar conta que também existe um outro estilo de vida, do qual muitos se esqueceram. Deveriam sair da rotina do trabalho de escritório, do consumismo.

4- Por que fotografar ?

Porque essa é a melhor maneira que encontrei para desvendar o mistério do desconhecido, que acredito ser a maior dádiva da vida.

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